Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador solidão. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de agosto de 2012

Sobre o que eu não sei dizer


Poderia começar abusando dos clichês: é mais uma daquelas fases, é temporário, vai passar, porque sempre passa. Digo apenas que é preciso. 
Há tempos tenho sentido um descompasso por dentro. Sentimentos contraditórios, pensamentos desconexos e uma sensação de vazio até então inédita. Passei a me acostumar com o fato de talvez estar perdida. Ou ser, não sei. Peço desculpa se pareço dispersa. Essa é a minha vida. 
As palavras fugiam de mim. Quando o encontro, aleatório, acontecia, era porque eu estava de alguma  forma alterada: álcool e cigarro, duas vãs companhias. Eu preciso da distância e da solidão. Preciso desse afastamento do mundo para poder me reencontrar. Perdi minha identidade enquanto tentava modificar a minha vida, e em tentando dar algum passo descobri que o caminho talvez não fosse aquele que eu queria. Pensar por si mesmo demanda coragem, força e auto estima, odeio admitir que passei a enxergar em mim a covardia alheia. Passei a fugir o olhar ao me encarar no espelho. "Quem estou tentando enganar?, era o pensamento que sempre me ocorria. Porque nada estava bem. Porque ir embora era tão mais doloroso que ficar, por isso eu resistia. E de tudo o que aconteceu, um sentimento persistente de inadequação restou, juntamente com as palavras. Muitas delas não - ditas, sufocadas, entrelinhas. Tudo o que eu sentia, mas não sabia dizer. Covardia.

O que eu quero dizer aos poucos está sendo dito. Uma crise desequilibra, traz incertezas, põe nossos pés no chão. Uma crise também nos impulsiona a mudar. Que seja assim, então. 

Dia após dia.


"Make a time to find your way"

sábado, 18 de junho de 2011

Lost

"On a cobweb afternoon/In a room full of emptiness/By a freeway I confess/I was lost in the pages." 
(Chris Cornell/ Tom Morello)


I don't know where else to go
I've just forgot the way back home
Here I am, staring at my feet
Secretly wishing not to be alone

Then I get down on my knees
Put my hands together and start to pray
I don't think anyone is gonna listen 
But at least I'm trying anyway

There are no maps, not even some signs
I don't remember how to begin
The steps I take are fading away
There's no place to stay, nobody to miss

I've got nothing here but memories
And a suitcase full of pain
I wish I could left all this behind
I wish I could stop this pouring rain

I try, I cry, I fall, I keep on going 
Here I am, walking again, on my own
By myself, facing hell, time and time again
Because sometimes you just can't go home.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Você

"Eu queria solidão, para não ferir os outros nem ser machucada".
(Lya Luft)

Google Imagens



Você não diz, mas sei que não está tão bem quanto vem tentando aparentar. Sorri, disfarça, pega o celular e sai porque é difícil demais estar. Aqui, ali, em qualquer lugar. E procura por nomes, números, numa busca incessante por um pouco de atenção. Uma migalha qualquer serviria, porque você está sozinha e sabe muito bem como é desconfortável essa sensação. O incômodo de não se adequar na própria pele. E anda como quem está perdida, acende um cigarro, respira, inspira, solta a fumaça, olha pro relógio. E não há mais nada além. Essa é você. Só, no meio de tanta gente desconhecida, de tanta agitação, num frio desses que é mais interior do que externo, próprio da estação. Você, tão pacífica e equilibrada, tão sem ressentimentos, ok, beleza, vai passar, sempre passa, é só mais um dia ruim, amanhã eu acordo, tomo um banho e torço pra que isso não se repita, é um saco, eu quase infarto, sempre morta, sempre morta. Tão boa atriz que ninguém nota.

E você procura algum sentido, dramatiza, entra naquele restaurante, é mais uma garota sozinha sem nada mais apropriado pra fazer. Sozinha não apenas por falta de companhia, pois a solidão lhe é inerente. Estivesse ela num estádio superlotado: da mesma forma se sentiria.

Você é uma personagem num enredo patético e sem sentido. Você perdeu, no exercício débil de fazer de conta, a noção da realidade. Tirando os pés do chão você caiu e perdeu, inclusive, a sua identidade. Uma personagem que não tem o texto decorado.  Nunca poderia ocupar o papel principal, sequer atua em improviso. E improvisar era a melhor saída, afinal. Você, mais uma atriz amargurada e ferida.


Você, uma estrangeira na sua própria vida.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Silêncios

" O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais."
(Guimarães Rosa)

Silencio porque a voz que está aqui dentro de mim precisa de descanso. Um repouso constante se faz necessário. Assim, me perco nos outros sentidos, deixo o egoísmo da fala de lado, sorrio. Ouço e mentalmente analiso as palavras que ecoam por aí, ora com motivos, ora sem sentido algum. Nesses momentos únicos de silêncio, eu sinto. E sentir hoje em dia é tão mais raro, tão mais difícil. Um estado geral de acomodação se instaurou por aí. E falam, falam, falam, falam...quando muito pouco precisa ser dito. E sou daquelas pessoas que acreditam com veemência que um simples olhar pode ser muito mais eloquente. Há coisa mais incrível do que dizer tudo o que se deseja sem que se perceba qualquer som sendo emitido?
O silêncio não pode ser assustador. O silêncio representa tudo o que nós somos. O silêncio sai e chega em lugares inalcançáveis por meras palavras. O silêncio é o máximo da realidade. É, talvez, a melhor maneira de mostrar a (nossa) verdade.
E o silêncio aproxima porque faz efervescer sentimentos. Pensamentos se transformam em sensações e palavra nenhuma precisa ser dispensada. Pra que se expressar verbalmente sobre algo que pode ser sentido? Palavras são importantes, elas tem sua hora adequada. O silêncio é surpreendente, surge inesperado. Como flores deixadas no escuro, sem bilhete, numa fria madrugada. Nada escrito, nada foi dito. Os sentimentos, entretanto, ficaram muito claros. O silêncio é eloquente, repito.


Silencio. Em dissertando sobre o silêncio me contradigo...Eis que não paro de escrever sobre algo que eu deveria estar sentindo...Então, paro. 



E, como brinde ao silêncio, me calo.


domingo, 3 de abril de 2011

Ace

Agony and angst
So deep inside
Some kind of sorrow
Some kind of blue
Too much
(feelings and needs)
I just can't hide.

All these tears that drop from my eyes
Water that flows without a course
Flows to somewhere?
Where? I don't know. 
Maybe to an empty space right here
That just can't be fulfilled
That can´t be shown.

I miss something I hadn't lived
Old days, old thoughts, any happiness
I feel an awkward kind of grief
Just like I am missing
A part that hurts, a piece of me
Everywhere I go, I don't fit in.

Sometimes I wish for an ace
That changes the game, changes a life
New beginnings, some kind of hope
Like the lucky you may have throwing the dice.

I'm stranger to myself
And sometimes
(so many times)
I lost my sense
Don't recognize my mind
With this whirlwind inside my head
I stare at the mirror
I feel I'm dead.


sábado, 12 de março de 2011

Blues

"Chorei três horas, depois dormi dois dias.Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total." 
(Caio Fernando Abreu)


No fundo do fundo do poço, quando as memórias antes pretéritas passam a se transformar em presente...
Vontade de morrer, de matar, de destruir tudo em volta pra se libertar de toda a raiva contida, de todos os gritos abafados, de todas as lágrimas vertidas.

Vontade de desaparecer completamente. Vontade de renascer, vontade de recomeçar sem passado, de não ter mais nenhuma cruz para carregar. Vontade de esquecer. Vontade de descansar.

Vontade de fechar as janelas, deixar o breu entrar. Porque assim eu me perco na minha própria escuridão. Me perco no vazio que há em mim. Eu não queria me doer. Eu só não queria mais sentir.


"Não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”
(Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ruby Tuesday

"Don't question why she needs to be so free
She'll tell you it's the only way to be
She just can't be chained
To a life where nothing's gained
And nothing's lost
At such a cost..."

(Mick Jagger/ Keith Richards)



Ela entrou no mesmo bar de costume, como sempre, sem se perder em conversas evasivas. Ela só queria se perder. Ela entra, pede sua bebida, dá um gole, olha para os dois lados, não compreendendo aquela monotonia, não entendendo se era algo interno ou o ambiente é que a trazia, acende seu cigarro, afinal, com um trago, qualquer dúvida é respondida.


Olha para o homem que está sentado numa mesa bem distante de onde ela está. Ele é velho. Bem mais velho. Uma barba espessa e branca cobre boa parte do seu rosto  marcado por grandes sulcos. O tempo deixa marcas, ela pensa. E, de algum modo, aquele rosto lhe parecia familiar. Ela impulsiona seu corpo para a frente, deixando de apoiar um dos cotovelos na mesa, força o olhar mas não consegue enxergá-lo com clareza. Há fumaça em todo o ambiente, um forte cheiro de cerveja, o som da jukebox se confunde com os gritos de alguns rapazes jogando sinuca numa outra mesa.

Observar a vida dos outros era atividade interessante, fazia com que ela tirasse um pouco o foco de tudo que dizia respeito a si mesma. Bastava de egoísmo. E, por uma questão de ego, ela buscava um sentido qualquer, porque nenhuma filosofia lhe satisfazia. Sentido , direção. Ela estava perdida.

Naquele tempo em que ficou ali, não conseguia tirar da cabeça a idéia de que aquele homem fazia parte da sua vida. Deja vu. Já esteve naquele exato momento, exatamente assim, em algum lugar no passado.

Louca, pensava consigo mesma se ele sentia a mesma coisa, como se esse encontro houvesse acontecido antes. Mas ele não respondia aos seus olhares investigativos.

Sua cabeça já parecia não funcionar corretamente. As luzes do bar pareciam cegar seus olhos, a cada passo que dava sem direção, ela já não sabia mais se estava sobre os próprios pés ou se já tinha passado das oito doses de whisky.

O único pensamento lúcido que lhe ocorria naquele momento era de que ela só encontraria as respostas que tanto procurava se falasse com aquele homem.

Quanto mais ela se aproximava dele, estranhamente, mais ele se distanciava. So fucking high. Bêbada, tentando entender alguma coisa, tentando ter controle. Tentando não chorar no meio de tantos homens e mulheres sem destino, mas cheios de ilusão. Bem como ela.

Fumaça cada vez mais densa, passos cada vez mais tortuosos e trôpegos, cigarro manchando seus dedos, e a ansiedade, a angústia, a dúvida. A certeza de que não havia nada ali que fosse mudar a sua vida. Ou fazê-la encontrar sua identidade, perdida em alguma esquina.

Então, ela começava a ouvir um som familiar. Uma velha canção dos Stones. Sua preferida. Com uma das mãos agitava seu cigarro, com a outra tentava trazer mais nitidez ao seu caminho, dissipando aquela nuvem que se formava em sua frente.

Encontrara um espelho. Mirava seu olhar, com certo receio e muita surpresa, sobre si mesma. Observava seus lábios se moverem acompanhando aquela melodia. Não se sentia mais tão perdida. Literal e ironicamente, ela se encontrara. Ela se sentia estranha, talvez. Mas não somos todos estranhos a nós mesmos?

Um espelho, obviamente; em que todas as perguntas são respondidas, onde a verdade é desvendada. Um espelho: ali a gente encontra uma saída.


"Goodbye, Ruby Tuesday, who could hang a name on you, when you change with every new day, still I'm gonna miss you..."



terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Clarice


"Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes..."
(Renato Russo)


Você já mediu a profundidade de um corte? Isso não me interessa, baby. O que me importa é  ver o sangue pouco a pouco jorrar e manchar a minha pele branca. Contraste, entende?
Doce sinfonia dos gemidos abafados pelo travesseiro.  Cabelos ensopados de suor, de lágrimas e de incertezas. Essa máscara me caiu muito bem. E, por genuína vaidade, paro para me olhar no espelho, encarando a minha pior metade. E as gotas rubras escorrem pelos meus dedos, pego um papel e começo , com orgulho, a escrever minha carta-testamento.

Estou muito cansada. A dor chega me dissecando de todas as formas e eu não posso mais comigo.  Parece que o fardo pesa demais nessas horas e eu não encontro abrigo. A solidão me acompanha com essa lâmina e isso nunca foi o bastante. Tantas vezes eu apenas chorei, abraçando meus joelhos, com vergonha de mim mesma por não ser tão forte assim. Mas penso no que chamam força e vejo tantas incoerências. O mundo é absurdo e exige de nós uma força hercúlea pra lidar com a vida. Eu não quero socorro. Eu quero a liberdade de estar na minha própria pele com conforto. Da maneira que as coisas tomaram seu curso, passei a odiar cada parte do meu corpo e da minha alma, se existe alguma. Eu só queria viver, baby.  E acho que viver foi sendo subestimado. Viver é fácil para  os entorpecidos pelo poder, seja ele qual for. Eis o preço que paguei para ser quem eu sou. Temos algemas mentais. Aqueles que tentam rompê-las sofrem demais. Sofri muito acreditando na beleza da vida. Até tudo virar cor e pó. Cinza. A felicidade é um olhar diferente para cada ser humano. E ser humano às vezes é ser infeliz. É ser magoado, é ser humilhado, é ser traído e não-considerado. Às vezes ser humano é só ser. E isso, baby, não tem graça alguma.
Em não sendo, vou tentar me adequar, onde haja a permissão para que eu seja fraca e sensível. E que a dor desapareça. Que eu enlouqueça, porque de coisas normais eu já estou cheia.
A propósito, mudei de identidade. Meu nome agora é Clarice. E à outra que morava em mim digo: desapareça.



 Clarice só tem 14 anos.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Elegia


Desvarios perpassam esta mente inquieta
Maré revolta quando surge a tempestade
Ora espero a bonança tão tardia
Ora devaneio sobre a infeliz realidade

De sentimentos pretéritos  jaz apenas o vazio
Ínfimo companheiro das noites de solidão
A repousar em meio leito agora frio
Disseco a fria carne do que chamam ilusão

Chores sob o mármore, desfila teu aparente luto
Neste chão não há estrelas, quiçá beleza
Sob os olhos do luar, não te emudeças
Que se transforme em lágrimas tua falsa tristeza

Abençoados os amantes que não tiveram desenganos
Cultivo flores , escrevo um epitáfio, restauro o altar
Para ti, Amor, que me causaste tamanho dano
E, com tanta frieza, foste capaz de me matar.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010


" Life is a waterfall,
we're one in the river,
and one again after the fall." 
(Daron Malakian / Serj Tankian)


Cerro os olhos e devaneio sobre o tempo
Que corre apressado, passos largos, imutável
A pele expõe seus sulcos e marcas
Por dentro, a ferida persiste
Incurável, insuportável, intacta.

O anseio maior, quiçá uma mudança
Esperança e a vontade otimista;
Certas coisas permanecem iguais
Embora a gente resista.

E o tempo tratou de reproduzir meu estado de espírito
nessa tarde cinza e fria de dezembro. 
Deixo meu olhar fixar as gotas na janela
Confundo o vento com o gélido em meu peito
Mil punhais atravessam meu coração agora
Não há nada mais que possa ser feito.



(gosto dos pingos de chuva, dos relâmpagos e dos trovões)

domingo, 14 de novembro de 2010

Do espelho


Eu não te reconheceria. Aqueles olhos penosos, desconfiados e uma boca que ensaiava um sorriso sem mostrar os dentes, um sorriso contido, uma dispersão aparente. Uma inocência que estava no limite do amadurecimento. Era notória a sua diferença. Era notório que você tinha marcas que estavam estampadas no seu rosto infantil, no seu pequeno corpo, na sua velha alma. Ingênua, tímida, com um ar de tristeza constante.
Eu não te reconheceria. E, à época, certas canções te prendiam, te fixavam e, posteriormente, se tornariam trilha da sua vida. Sempre solitária, sempre quieta, sempre fechada.
Eu não te reconheceria, nem naquelas fotografias, foram tantas mudanças, jamais imaginaria que, de alguma forma, você conseguiria.
Eu não te reconheceria. Se consegui foi por identificação imediata com aquele olhar. Eu me olho no espelho e percebo: algumas coisas nunca mudam, por mais diferentes que por agora pareçam. Posso ter segurança, melhorado minha aparência, crescido de todas as maneiras possíveis, pois de 6 para 20 anos há distorções. O reflexo diverge, mas algo permanece intacto. A incompletude e a solidão ainda me assombram.
Se eu pudesse dizer algo àquela menina que tinha medo de sorrir e de falar, diria que eu estou indo bem, que ela não precisava ter tantas cicatrizes para olhar hoje em dia, porque o tempo trata, a seu modo, de resolver tudo que parece insolucionável. E as piores coisas que te aconteceram durante a sua infância, coisas das quais você se lembra com clareza e que ainda te doem por dentro de uma forma insuportável...Tudo isso te transformou no melhor que você podia ser.
E aquela canção que você ouvia sem muito compreender, ela é verdade, é o mantra da sua vida desde sempre: “ Tudo passa, tudo passará..."

Mas, honestamente, você não precisava se doer tanto.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Ode às nuvens

Google Imagens


Eu esperava que a chuva, hora ou outra, chegasse
Regasse as plantas, molhasse o solo, me inundasse por dentro
Contradições de lágrimas e gotas ao escorrerem pelo rosto
Não sabia distingui-las, não era meu intento.

Olhava para o céu e ele me remetia ao passado.
Um par deitado a observar as nuvens e o seu movimento
Cirrus, "a mais delicada delas", você me dizia com um sorriso
E apontava para o céu, seu olhar sempre atento
Stratus, " vamos pegar algum chuvisco!"

Um misto de tristeza e solidão
À medida que o tempo mudava, eu bem me lembro
Daquela saudade imensurável de você, de uma certa melancolia.
E daquela tarde cinza de setembro.

Recorro agora à metereologia
Esperando que as tempestades tenham um fim
E, sabe-se lá, para tentar compreender
Essa Cumulonimbus aqui dentro de mim.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dos silêncios


Tantas palavras foram desperdiçadas nesse nosso embate. Escolhi com atenção cada uma que eu iria empregar para botar pra fora os desaforos, a angústia e a raiva que não era pouca.
Você também soube fazer o seu discurso, fugindo do lugar comum e tentando explicar o inexplicável. Sequer chegamos ao cerne de tudo. Você fugiu, eu hesitei, ficamos dando voltas e voltas, jogando palavras boca a fora. E guardando o fundamental por dentro. Que você queria falar e não o fez. Eu também me calei. E foram muitos os silêncios. Sobre eles me recuso a dissertar pois fiquei alienada. Sim, eu concordo, tudo ficou muito estranho. Nós, mudos, compartilhando suspiros e murmúrios. Onde você ria e eu te escutava, inverteram-se os papéis: eu falava, te interrompia e não houve sequer esboço de um sorriso. Por banalidades, coisas sólidas e fortes se estremecem. Talvez não fossem tão firmes assim. Talvez os silêncios tenham mesmo falado mais alto. E nós não soubemos ouvir.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sobre a solidão


Eu me desiludi hoje. Recebi de uma pessoa inesperada uma notícia inesperada  que me afetou muito. Muito mais pela construção ideal e mítica que fiz sobre amor, companheirismo e cumplicidade. Porque eu olhava para elas e pensava: "Ah, amor existe sim. Tem exatamente essa cor. A cor desses olhares quando se encontram. Tem esse tom de voz doce ao atender o telefone. Amor existe sim. É exatamente assim. É bonito."
Era a minha esperança derradeira. Eu apostava tudo e além naquele relacionamento. Até hoje. Até o seu vencimento. As coisas mudam, o sentimento muda. Num relacionamento comum, composto por um par, com duas pessoas distintas, não podemos depender tanto do outro, tentar adivinhar e controlar sentimentos. Cabe apenas uma espera silenciosa e um bocado de confiança. A gente precisa acreditar. 
Se eu, que sou apenas uma admiradora distante dessa história, fiquei inconformada com o final, imagine a protagonista. Foi mais do que inesperado. Foi doído demais. E doeu muito porque ela acreditou nessa mesma proporção; ela acreditou em demasia. 
Intitulei esse texto como "Sobre a solidão" porque é ela quem aparece nessas horas. É ela quem te encara no espelho, com os olhos marejados de água. É ela que repousa a cabeça no travesseiro que ficou ali, vazio, bem ao seu lado. É ela que vai te acompanhar por um tempo. Tempo mais do que necessário para cicatrizar a ferida e diminuir a dor. A solidão é muito subestimada. Penso eu que ninguém, de fato, nasceu pra ser sozinho. Quanto ao estado solitário? Esse estado temporário, de trânsito para um possível futuro relacionamento, quando bem aproveitado, traz um crescimento incrível. O que é a solidão, além de um contato mais íntimo e intenso consigo mesmo? É aquele olhar, ora irremediavelmente voltado para o outro, passando a ser direcionado para dentro de você. Digo: com a dor, com as lágrimas, com tempo e com a solidão, por mais absurda que seja a compreensão, dá para construir algo concreto e potencialmente belo. Você pode se consertar. Rever, cair, levantar, aprender, mudar. E tentar ser alguém melhor dali em diante.

E, mais uma coisa: não dá para deixar de acreditar no amor, embora tantas desilusões suas e de terceiros façam parte da jornada. Não dá para desacreditar porque, mal ou bem, o amor acontece. O amor é real. E, por fim, "tudo o que você precisa é de amor". Mas, enquanto ele não vem, não despreze a solidão. Uma companhia é sempre companhia. E você será, sempre, seu melhor companheiro.


P.S.: M., para você, que está machucada por dentro. Como eu queria arrancar de dentro de você essa dor, fazer como que tudo isso passasse e que você não sofresse. Não posso. Aproveite esse momento para refletir. E, além da sua solidão, lembre-se: estou aqui por você. Te amo muito, muito. Você ainda será muito feliz.



domingo, 30 de maio de 2010

A Fuga (ou o crime perfeito)


Abri o armário. Joguei todas as roupas em cima da cama. Abri a mala. Sem pensar, coloquei algumas delas ali dentro, junto com alguns livros, alguns discos, algumas lembranças.
Coloquei minha surrada calça jeans, aquela de que mais gosto e que me dá mais coragem nesses ímpetos de aventura. Peguei algum (pouco) dinheiro, meti no bolso. Me olhei no espelho. Pensei: 'Tem que dar certo.' Pus uma camiseta, prendi o cabelo, calcei meus sapatos e fui. Para nunca mais ou para um novo sempre.

Porque às vezes, muitas das vezes, a gente tem que escapar. Da cena do crime, da nossa casa, da saudade, da dor. Ou, quem sabe, a fuga é da solidão.

Porque ficar sozinho por aqui não dá.

Então, ficarei sozinho em outro lugar.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

So vulnerable ...(like china in my hands)

Ela é mesmo vulnerável. Inconstante. Frágil. Melancólica. Anda por aí um pouco tristonha como sempre. Ou melhor, como nunca.
Ela nunca saberá o que perdeu. Nunca saberá em que momento exato ela se escondeu e se esqueceu do caminho de volta ao seu doce lar (a gente sempre esquece e ele talvez nem seja tão doce assim).Ela faz questão de não lembrar, pois lá no fundo ela sabe que não pode ir para casa. E isso dói.

Quem disse isso a conhecia bem. Sabia de cor e salteado a dor que ela sentia, mas não podia medi-la. Quem vai mensurar o sofrimento? Ninguém é tão louco a ponto de se deixar levar pela amargura e passar horas dilacerando a dor, dissecando a mágoa. Será que não?
Então, por que o gosto pela solidão?

Por que essa tristeza constante, esse sorriso escuso, esses mil segredos e bocas caladas, e raiva, e tentação, e culpa, e medo?


Ninguém sabe responder. Ela continua na chuva, sem pressa, sem sombra de dúvidas, com poucas certezas guardadas no bolso de sua capa de chuva amarela. Não tem graça alguma. Ela não está rindo. Seus olhos estão fixos no céu nublado, tão escuro quanto sua mente.

Ela poderia derreter. Eu sei disso. Ela é vulnerável demais para estar passando por uma tempestade.

Por outro lado, vocês não vão acreditar. Ela é forte demais. Forte o bastante para seguir em frente.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Sobre as decisões

Naquele momento parecia tão certo.Quem me dera saber as consequências.Não há placa indicando retorno.Não há possibilidade de voltar atrás.Tentativas vãs de reparo.Será que a tão esperada mudança foi tanta ao ponto de questionar atitudes antes consideradas corretas e sensatas ?A nossa mente é traidora.Pega e peca fundo na sensibilidade que não podemos ter em momentos como esse.Ela emoldura pinturas de um passado longíquo, mas perfeito.Nem o olhar mais atento ousaria prever um futuro difuso, agora presente.
Não era esse o papel que eu queria.O papel da dor, da corte, da vítima.O papel que muitos almejam por ser difícil, complexo, amargo, decisivo.Odeio dificuldades ( ela gostava de desafios).Detesto decisões (ela era taxativa).Mesmo assim, matei minha personagem.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Devaneios

Devaneios...Nessa madrugada fria, vento sussurrando em meu ouvido palavras que eu quase nem ouço e me arrepiando por dentro.Mudança de outono para inverno.De quarta para quinta, e já nem lembro em que dia quis rasgar o calendário e me esquecer por um breve instante que estou envelhecendo.Minha memória então perfeita já não é tão certa como antes.Por vezes entro no quarto com algum intuito...Qual?Não mais sei.Meu andar é menos apressado, vez ou outra tropeço em meus passos...Correr para quê?Não quero chegar antes...não quero chegar logo.Tropeço nas palavras,tropeço em meus sentidos.Sinto um vazio gélido no peito.Sinto uma navalha cortar funda e profundamente minha carne para que os instantes de dor sejam aproveitados assim,com deleite.Como se a fina linha de sangue fosse o limite entre prazer e agonia.De certo modo, crescer consiste nesta escolha.E eu não sei.Experimentei-os como um elixir da juventude(não há desejo mais intenso e secreto ).Bebi do prazer para me sentir eterno.Saboreei da angústia para me sentir real.E nada me satisfez pois estou vivo.Estou vivo: sob inconstância.