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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Hey God

"Eu te proclamo grande, admirável,
Não porque fizeste o sol para presidir o dia
E as estrelas para presidirem a noite;
Não porque fizeste a terra e tudo que se contém nela,
Frutos do campo, flores, cinemas e locomotivas;
Não porque fizeste o mar e tudo que se contém nele,
Seus animais, suas plantas, seus submarinos, suas sereias:
Eu te proclamo grande e admirável eternamente
Porque te fazes minúsculo na eucaristia,
Tanto assim que qualquer um, mesmo frágil, te contém."

(Murilo Mendes)



Deus, isso não é uma oração. Eu nem sei elaborar alguma coisa, nem sei se ao me referir a você devo procurar um pronome de tratamento mais adequado ou se, ao mencioná-lo, deveria fazer uso das letras maiúsculas. De verdade,  eu nem precisaria escrever, acredito que você me ouve e, onde quer que esteja, repousa seus olhos e mantém seus braços abertos pra mim. Eu, que sempre preciso de braços e de corações escancarados.
Sempre fui avessa a convenções. Porque tudo, no fim das contas, é uma criação, um nome que a gente dá só pra separar o joio do trigo. Por isso, nunca acreditei na distância entre nós. Nunca acreditei que, para senti-lo, eu precisaria ir numa missa, culto, seja lá o que for. Porque eu te sinto aqui dentro.
Ah, Deus, eu tenho ouvido uma música que me faz pensar tanto em você. Será que você é um de nós? Será que se eu te encontrasse você responderia a alguns dos meus questionamentos? Sou pecadora por ser tão inconformada?
Eu não quero pensar. Não quero dizer nada. Não quero fazer nada. Só quero sentir.
E sentir tem me causado sérios danos. Desculpa, Deus, mas você escolheu a pior pessoa pra ser sensível. Sou extrema, você deve saber disso, afinal, me criou. Consigo ser tão indiferente quanto passional. E choro, me doo, lamento, fico horas pensando sobre o que vejo, ouço e sinto e tenho o (mal) costume de tentar colocar tudo em palavras. Li uma vez um trecho com o qual me identifiquei completamente, dizia mais ou menos que em sendo escritor, embora haja a prerrogativa da sensibilidade, passa-se a agir de forma mecânica, desaprende-se o jeito de sentir o tangível, de amar, de viver do jeito certo, vive-se através dos textos, como se fôssemos sempre espectadores e não personagens. Pois é, Deus, às vezes eu me sinto uma espectadora da minha vida. E quando a vejo passar pelos meus olhos, não sinto a menor vontade de bater palmas. Você diria que nada do que estou falando tem fundamento, porque, obviamente, tenho a chance de mudar essa dinâmica na hora em que me convier. Minha vida não está pré - determinada, não há roteiros previamente esboçados. Sim, que eu poderia largar minha faculdade e fazer o que eu amo, que eu poderia mandar todo mundo pro inferno e fazer o que eu quero, que eu não deveria me preocupar com nada além do que sinto. Que, que, que. Deus, acho até que você me aconselharia a ser um pouco mais egoísta, já que estamos falando da minha felicidade. Já que eu poderia ser ainda  mais feliz.


Por que, mesmo sabendo disso tudo, ainda resisto? Tenho com tanta clareza que a vida é só uma, que o único sentido e propósito de estarmos vivos é o aprendizado e a busca pela felicidade, mas, sabe-se lá porque e quando, acabei desistindo de mim. Tem coisa mais ridícula do que desistir de si mesmo?

Então, Deus, eu que nem rezar sei, queria pedir uma força para mudar. Mudar mesmo, dar uma guinada, essas coisas que a gente vê na televisão e se embasbaca, porque acredita que não acontece na realidade.
Mas, sabe, Deus, eu acredito. Prometo ser uma pessoa mais otimista e juro me esforçar no intento. Eu inventei toda a fé que tenho, mas, de verdade, acredito que o meu final ainda pode ser aplaudido.

Acredito, com um coração que ainda insiste em ter esperanças, que o final de tudo isso pode ser incrivelmente lindo.


Que assim seja. 

"What if God was one of us? Just a slob like one of us? Just a stranger on the bus trying to make his way home..."

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

What Ever Happened

"Oh that's an ending that I can't write, 'cause
I've got you to let me down."
(Julian Casablancas)


Não sei quantos cigarros terei que acender para apagar meus pensamentos. Porque a fumaça preenche o ambiente e eu fico lembrando de algo que li " ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias..." Corta. Não, nem tenho mais amigos para importunar com meus dramas e lamentos sobre tudo o que é incerto. De algum modo eles perceberam antes de mim que estou me tornando a pessoa mais perdida do universo. E não há nada pior do que lidar com algo/alguém que se perdeu. Engraçado, porque eu achava que isso era absolutamente certo. Calma, deixa eu dar uma olhada em que lua estamos. Primeiro quarto crescente. É, então o problema não é lunar. O problema é amar. Ou amar de verdade pela primeira vez na vida e não saber direito como lidar. Porque, sem querer, você começa a esperar muitas coisas, a exigir tantas outras, quando simplesmente bastaria viver, sem cobranças, sem necessidades. E li isso: " seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente, insistirás, infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos - emoções."

E se as pessoas têm emoções e conseguem ser equilibradas, acho que exageraram na porção que me era de direito. Ah, eu clamo ser tão, uh, racional, pé no chão,o que não é completamente ilusão,  já que consigo ser pouco sensível e até fria quando eu quero ou quando a situação exige de mim tal comportamento. Colocou amor na história, ferrou tudo. Sabe aquele dramalhão mexicano, aquela coisa de maquiagem carregada, todas as cenas exageradas, muito choro, muito álcool, muito cigarro, muito, muito, muito...muito. Eu sinto demais. E as pequenas ausências, pequenas rejeições, como cantou Alanis,são reais demais pra mim. Somewhere along the way I think I gave you the power to make me feel the way I thought only my father could.

Aí a crítica virginiana se manifesta, porque né, eu começo a achar que a culpa (?) de tudo é minha. Porque eu sou paranoica, sou muito fechada, expresso tudo em palavras, estou irada e atendo o telefone dizendo que está tudo bem, que estou com saudades e estou ouvindo The Strokes, What Ever Happened?

O que aconteceu? O que está acontecendo? Pouco antes de você ligar eu estava dissipando a fumaça do cigarro com uma mão, a outra enxugando uma lágrima e cantando a plenos pulmões you don't miss me, I know, com uma tristeza digna de paráfrase daquela antológica cena  I think she's the saddest girl to ever hold a cigarette, em vez de um martini.


Drama queen life style. Um violino e uma faca de serra, por favor. E se você me perguntar se eu quero deixar isso tudo de lado, esquecer, vou dizer, com o risco de receber recomendações terapêuticas e, principalmente, psiquiátricas, que não, não quero. Eu amo o amor


O amor me deixa idiota. Eu, sendo idiota, divirto os outros. Um lado bom isso tinha que ter, afinal.


(Que eu não esteja enlouquecendo e que seja apenas um problema hormonal, amém).


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sem título (porque esse é o melhor título, afinal)

"My dreams are a cruel joke. They taunt me."
(Vanilla Sky)


É como se eu me perguntasse a cada instante "quem sou eu" e nunca encontrasse uma resposta certa. Eu sou uma piada de mau gosto. E eu nem sei ao certo quem sou. Ao abrir meus olhos, quando o sol insiste em romper as cortinas, me coagindo a levantar, me faço essa pergunta reiteradas vezes. À noite, por volta das seis horas da tarde, quando você não consegue precisar se ainda é dia ou noite, as cores se misturam, e você sente uma espécie de melancolia, que se agrava quando se trata de um dia de domingo, você encara o céu e tenta encontrar nas nuvens as respostas dos seus milhares de porquês. E, de algum modo, continuo esperando. Para que eu não sonhe, para que eu encontre essas respostas, se é que elas existem realmente. Porque talvez viver seja simplesmente esse conjunto de ações e sentimentos encadeados que culminam na única certeza que nos é dada desde o principio: a morte. E o momento de maior epifania que teríamos durante a vida, paradoxalmente falando, seria morrendo. Em escrevendo eu morro todos os dias. E ainda não   presenciei minha aleluia.

Não sei se perdi a melhor parte da história dedicando muito mais tempo e esforço expressando tudo em palavras. Às vezes me questiono se ainda tenho a capacidade de sentir. Meus olhos filtram situações que, por sua vez, são filtradas pelos meus pensamentos, se transformando, por fim,  em palavras, desperdiçadas, creio agora. Porque ninguém me lê. Eu não me leio. Eu não me compreendo. E depois de divagações absolutamente dispensáveis e irrelevantes, volto ao cerne de tudo: acho que perdi minha identidade no processo de me encontrar. Cá entre nós, essa coisa da busca por autoconhecimento é quase mítica. Uns percorrem o caminho de Santiago de Compostela a pé, outros exploram todos os estados alterados de consciência para reconhecer (ou desconhecer) as suas várias faces, muitos rezam, alguns leem livros de autoajuda. Tem gente que escreve para tentar se conhecer. Se há um mínimo de eficácia nisso tudo eu não sei. Mas tento, há exatos 8 anos. E, de alguma forma, sinto que a minha verdade está justamente nessas palavras mal-ditas. Porque, não me engano, escrever também é maldição. 

Então eu espero. Sentido, fé, reflexão.  Espero não mais encarar um estranho ao me olhar no espelho. Ou ter, ao menos, a capacidade de me conhecer o bastante para que eu possa, quem sabe, me autobiografar. E se isso não acontecer, continuarei a minha prece diária:

Que minha inspiração não cesse e que haja sempre criatividade. Porque assim eu posso me (re) inventar.




Ela sente muito e tudo o que é sentido fica armazenado lá no fundo do fundo do fundo. Ela só consegue esvaziar a sua alma torturada assim: regurgitando as palavras. Não, nem sempre é bonito. Muitas vezes não é. Às vezes é cru e seco. Quase sempre é doído.



quinta-feira, 23 de junho de 2011

Carta pra alguém do lado

Há tempos não me sentia tão confortável na minha pele, sabia? Um saco isso, pra quem adora dramatizar como eu. Você, você, meu amigo, me conhece melhor do que ninguém no mundo e sabendo das coisas que eu tenho passado, deve ter pensado que eu iria desistir. Ou, no mínimo, chorar bastante, abraçada com o  travesseiro. 'Para de ouvir essas músicas depressivas', você diria. 
Meu dia não foi dos melhores. Acordei de ressaca, e eu nem bebi, acredita? Eu estava desnorteada, o corpo lasso, queria ficar ali, imóvel, encarando o branco do meu teto e pensando, pensando nas palavras que eu tenho ouvido, nas situações que tenho vivido, no que eu tenho sentido, enfim. Ou dormindo, pra sempre, o que não seria ruim. Não pude me dar ao luxo, então fui à luta. Fiz todas as coisas que eu deveria fazer, eu com aquela paranoia de que a bagunça dos cômodos  é um retrato da minha confusão mental. Incomodada, coloquei tudo no lugar. Pus meu cd antiquíssimo do Bon Jovi pra tocar, eu sei, acordei não só acabada como brega. Enquanto conversava com meu irmão, interrompi o curso das palavras por um instante e meus olhos se encheram d'água assim, repentinamente. Ele, claro, não entendeu nada. Eu ficava repetindo: essa música é tão linda, tão linda (Bed of Roses, naquela parte do " About all of the things that I long to believe, about love, the truth and what you mean to me and the truth is, baby, you're all that I need"). Aí fui me esconder de vergonha por me sentir assim e, juro, foi só um projeto de, sequer chorei. Eu perdi o controle sobre as minhas reações, cara. A pior parte é essa: a agonia e a angústia que não saem daqui de dentro de maneira alguma, e você fica de um jeito tão triste, tão miserável que, por pouco, não sente pena de si mesmo. Tem coisa mais patética do que sentir pena de si mesmo? Foi com esse pensamento que eu decidi mudar o meu estado de espírito. Ok, tá uma merda, mas o que eu posso fazer pra que as coisas fiquem mais suportáveis? Exatamente isso: nada. Fiquei no meu canto, fazendo alguns resumos, ouvindo algumas músicas, revendo algumas fotos, lembrando, porque lembrando de outras coisas eu esqueço do agora. 

Tá todo mundo muito preocupado. Sinto que as pessoas falam comigo como se fosse pela última vez, como se a qualquer instante eu fosse embora. Eu sei que tenho exagerado, tá, talvez não tenha exagerado, mas eu estou num exílio - do mundo e de mim. Então quem se importa quer saber porque diabos eu não estou saindo com meus amigos, porque eu não atendo o celular e porque de vez em quando eu sumo (alguns pensaram mesmo que eu tinha morrido). Como eu li uma vez e sempre rio quando penso nisso: bom, se eu tivesse realmente sumido, você não estaria aqui falando comigo. Não estou nem aí se vão sentir falta de mim, eu estou me afastando pra tentar pôr as coisas em ordem. Deve ser mais uma dessas crises de identidade, de fé, de tudo. A Má diz que eu sou uma pensadora e, mais do que isso, uma inconformada, que eu analiso tudo, que eu sinto tudo e, por conta disso, sofro muito e amo muito, tudo assim, com advérbio de intensidade. Ela insiste que eu tenho que largar tudo o que não me apraz e sair correndo desesperada atrás daquelas coisas que certamente me farão feliz. "Veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.” Tenho lido tanto Caio e ouvido tanto Damien Rice que parece que a melancolia fez de mim sua morada e não quer mais sair daqui. Até que ela tem um certo charme, um pouco Greta Garbo, a única coisa que eu quero no momento é ficar só. Com meus livros, com meus textos, com meus dramas repetidos e sentindo amor, e saudade, e uma tristeza que traz consigo a certeza (não mais esperança, Vinicius), de um dia não ser mais triste não.

Então, meu querido amigo,  a você que me lê agora, se perguntando onde está a minha vida, digo que está aqui, sendo vivida tranquilamente, sendo sentida intensamente, porque eu vou chorar muito ainda, e vou morrer de tanta alegria, porque as coisas são assim. Eu tenho o meu tempo, tenho essas crises, essa sou eu, até o fim. E a vocês que estão achando que eu sumi (e até morri), digo que essa é uma fase, que, inclusive, na minha idade ela é bem comum. Pareço perdida, mas sei muito bem onde estou. E eu não irei a lugar nenhum.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Divã

Eu nem sei porque vim aqui. Mentira, eu sei. Mas tenho medo de falar em voz alta, tenho medo de expôr tudo isso que está secretamente guardado aqui dentro. Isso mata? Não sei, sei apenas que eu senti necessidade de vir aqui, despejar tudo o que eu ignoro, escondo, tudo o que me dá medo, tudo o que me assusta, tudo o que eu sou.
Bom, pra começo de conversa eu não sei se me sinto à vontade contando minhas coisas para um estranho. Pensando bem, acho que tenho dificuldades de me abrir com qualquer pessoa. É, talvez esse seja um dos motivos de eu estar aqui.
Por que eu fico tão calada? Costume, acho. Sempre passei mais tempo ouvindo do que falando...É um exercício de tolerância também, aprendi muito nos meus silêncios. Já me disseram que sou uma boa ouvinte, mas acho que esse não é o lugar mais adequado pra isso, né? Essa função é sua, pelo menos por enquanto...
A principal motivação que me trouxe aqui é banal. Pode rir, se quiser. Eu rio toda vez que falo isso. Não tenho conseguido chorar ultimamente. Contraditório, eu sei. Ok, muitos considerariam isso uma benção, mas não choro porque me faltam motivos, pelo contrário. Passei por muita coisa ultimamente e coisas bem duras, bem difíceis de lidar. Pra variar, fim de relacionamento. Se fosse apenas isso, talvez eu seguisse mais tranquila, mas duas semanas depois meu melhor amigo morreu. O mundo me pareceu sem sentido, nenhuma crença, fé, nenhum consolo, nada fez com que eu me acostumasse com essas perdas. Uma irremediável, outra, irreversível. Sinto um vazio grande, sinto uma dor imensa, impossível de descrever com palavras. Arrancaram um pedaço de mim e ainda não tive tempo de analisar tudo, de tentar entender, de me curar. A única coisa que persistia na minha cabeça era: eu não fiz tudo o que eu pude. Ainda persiste. Porque acabou, de um modo ou de outro, não há soluções. Guimarães Rosa disse e eu confirmo: " O trágico não vem a conta-gotas".

Eu preciso chorar. Preciso desabar mesmo, ficar sem ar, soluçar, ficar com os olhos inchados, dormir e acordar no dia seguinte disposta a continuar. Eu sei que tenho que seguir, mas ainda estou presa. Muita saudade,  de um jeito tão dolorido, tão desgastante, tão triste.

Meu relacionamento acabou por escolha.Na realidade, não há escolhas quando você está sem saída. Percebi que não havia sentido em me cercear em prol de outra pessoa que não estava se empenhando em fazer dar certo. Brigas, brigas, brigas, promessas, quebra de todas elas, desculpas e uma desculpa final. Não sei pra quem é pior no fim das contas...Mas o amor não acaba de um dia pro outro e algumas vezes você se pega pensando se fez a coisa certa. Se era aquilo mesmo que você queria. Eu pensei muito sobre isso. E decidi não pensar mais. Até que o Henrique morreu. Voltei a pensar em tudo novamente. Constatei que a vida é mesmo passageira e quando você menos espera, perde as pessoas que você mais ama. E eu perdi duas num curto espaço de tempo.

Parei para pensar na minha vida também. Em tudo que eu queria fazer e não fiz, no tempo que eu perdi. Quem sou eu? Já não sei mais. Eles se foram e levaram a minha identidade.

Sobre o amor? Eu tive alguns relacionamentos, a maioria deles duradoura. Sempre tentei ser coerente, fiel, acima de tudo, a mim mesma. Então, se eu não estou satisfeita, o mais sensato é seguir só. Só que a solidão apavora. Na solidão, a gente enfrenta os nossos fantasmas, enfrenta as decepções, enfrenta tudo aquilo para o qual fechamos os olhos. Tem coisas que a gente simplesmente não quer ver.
Confesso ter ficado um pouco amarga com o passar do tempo.. Cada relação que acabava, arrebatava consigo um pedaço do meu coração. Amei muitas vezes e perdi. Faça as contas do que sobrou. Porque essa amargura é um sinal de que eu sofri, mas tentei. Não foi por ter amado de menos. Foi porque eu amei demais.

É só saudade o que eu sinto do Henrique. Ele é eterno. Adorava se exibir, era absolutamente espontâneo, criativo, lindo. Ele era exatamente o meu oposto. Confesso que sentia um pouco de inveja dele, porque ele era tudo o que eu queria ser. Eu fechada, reservada, até fria. Ele era a vida em seu ápice, em sua forma mais bonita. Ele ter simplesmente ido assim, sem se despedir, não entra na minha cabeça. Sinto calafrios por dentro, sinto vontade de sair correndo pra onde ele está. Eu só queria olhar de novo naqueles olhos cinzas. Eu só queria dizer adeus.

Por que eles saíram assim da minha vida? Um por escolha, outro por destino. E ambos me doem, talvez não da mesma forma, não me importa nada disso, só sinto essa dor latejando no meu peito. Se essa dor fosse vertida em lágrimas, quem sabe eu pudesse me acostumar. Mas dá pra se acostumar com essas perdas?
Meu coração sinaliza toda hora que existe algo ausente. Que não restou nada, além da falta.

Estou pensando nele. Nele que até tão pouco tempo atrás era parte de mim. Não me imaginava passar os dias sem uma conversa, um beijo, a presença. "Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera." Um dos sermões do Pe. Antonio Vieira, já ouviu falar? De todas as razões para o fim esperado, o tempo foi o mais cruel. Você planeja de todo o coração passar a eternidade com alguém. Faz juras de amor, faz uso recorrente das expressões "nunca" e "sempre". Tudo no amor é extremo. Nunca se quer deixar o outro porque pra sempre prevalecerá o amor. E o tempo, traquina, bagunça tudo. E nos faz constatar que, na maioria das vezes,  nunca é pra sempre. Cá estou amargurada novamente, não é? Mas posso te contar um segredo? Dessa vez , dessa única vez, eu acreditei que fosse.


Acho que estou chorando, afinal. Porque os sentimentos que estão aqui dentro são fortes demais, hora ou outra romperiam esse olhar que busca algum sentido agora, agora em que não há. Eu queria que fosse verdade, que eu aproveitasse o máximo que eu pudesse da companhia deles, porque sabemos muitas coisas, mas não sabemos nada quanto ao fim. O fim esperado, o fim imprevisível. Os fins que sabe-se lá porque acabaram se encontrando na minha vida, tão repentinamente. E não há sequer preparo pra esse tipo de coisa. 

Talvez você tenha razão. Fazer com que haja alguma lógica nisso tudo cabe a mim. Porque os fins, de repente, podem significar um começo. Um aprendizado, uma lembrança de que algo valeu a pena. Perder-se também é caminho, não é o que dizem? Que eu sinta saudade, que as lágrimas caiam e que eu tenha força para enxugá-las. Que eu perca, que eu me perca. E que eu saiba me encontrar.




terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Divagações

"Se você é coerente consigo mesmo, o resto é suportável. Eu suporto."
(Hilda Hilst)


É mais difícil do que eu supunha. Quero dizer, lidar com as pessoas é um trabalho árduo. Cada ser humano é ímpar, dotado de milhões de complexos, neuroses, defeitos e virtudes. Algumas dessas sabem lidar muito bem com essa caixa de pandora que trazemos dentro de nós. Outras perdem a batalha contra o ego e o orgulho, levando a uma sequência de desastres no que se pode chamar relação humana. Se adequar em situações assim sem perder a cabeça e a identidade é bem complicado. Sem perder a fé também. Não podemos mudar ninguém a não ser nós mesmos. Não vale o esforço e nunca chegaremos a um resultado. Nascemos sós, temos uma personalidade, convivemos com as pessoas e morremos sós. Simples assim. Viver é de um egoísmo imenso. Se você parar para analisar a lógica da existência, a primeira pessoa do singular é o pronome mais empregado no percurso. 'Estou namorando porque eu quero companhia.' 'Estou estudando porque eu quero ter um bom emprego e, com ele, eu quero ganhar dinheiro.' Eu, eu, eu. 
Às vezes, deito no chão do meu quarto, tranco a porta, apago a luz e fico pensando na vida. "O que há de interessante nisso?", você indagaria. Eu simplesmente não me encaixo no molde atual da humanidade. Eu sinto que não pertenço a esse lugar. Dedico tempo demais pensando em como melhorar o mundo a minha volta, tentando entender certos comportamentos, tentando encontrar explicações para o inexplicável. Não sei se o problema é comigo, com meus pensamentos e meu modo  de enxergar a vida ou se é a humanidade que anda, com o perdão da paráfrase, desumana mesmo. A sociedade e certas figuras (a maioria esmagadora, diga-se de passagem) que a compõem me enojam. Pela hipocrisia, pela corrupção, pelas desigualdades, pela falta de amor, de perdão, de caráter, pelos preconceitos infundados, pela intolerância, pela injustiça, pelo ódio. A sociedade é um reflexo tosco da mente das pessoas. Só quando a gente lida com certas situações que passamos a compreender o porquê de estarmos onde estamos. Estamos a beira de um abismo.Para onde estamos indo? Não sei dizer ao certo, mas sabe o fundo do poço? Não é nada bonito.



"Deus, dai-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba a diferença."

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Fragmentos


(Relendo meus arquivos, fiz uma pequena seleção de trechos de emails que escrevi desde o ano passado, emails que me fizeram pensar, refletir, indagar e sentir. MUITO. Resolvi compartilhar...)



Você não pode depender dos outros e nem culpá-los pelo que quer que seja. Sua felicidade não é incompleta porque você está sozinho ou porque seu melhor amigo e você brigaram, ou porque o seu pai é muito rígido e seu trabalho é uma bosta. Você é infeliz porque você está infeliz. Todas essas coisas são circunstâncias e reflexos de algo que acontece com você. Pensa: no momento em que você está mais feliz, parece que tudo em volta está perfeito também. Você está em paz consigo mesmo. Você precisa resgatar tudo isso. A melhor coisa de chegar no fundo do poço é aquela possibilidade de poder sair. Porque nada é pra sempre. Mas sair de lá demanda esforço e não é fácil voltar para um momento anterior àquele em que tudo passou a dar errado e acabou estragando tudo. A vida é sua e você pode mudá-la a qualquer momento. (...)
Eu acredito em você. Conheço o seu potencial e reconheço o seu valor. Você vai encontrar o caminho de volta. Basta você querer. E acreditar que você merece.(JUN/2010)

Não é fácil. Em se tratando de amor, nunca é simples. Quer dizer, nunca tive uma experiência tranquila. Sempre vi o amor como aquela coisa mítica, bonita, que supera tudo e todos, que vence no fim, que tem que doer pra ser real, que muda a sua vida. Até muda...por um certo tempo e, às vezes, não exatamente do jeito que nós imaginamos.
Sabe o que complica mais as coisas? A imagem que nós fazemos do relacionamento quando acaba. Relembramos apenas as coisas boas, os momentos felizes, as juras eternas...e esquecemos que se o namoro acabou é porque havia algo de errado. Porque houve lágrimas, brigas, frieza, distância. Não peço que remoa esse sentimentos ruins, não. Mas seja realista nesse aspecto. Não superestime os bons momentos nem subestime os maus. Pondere.
Confesso que hoje a dor surgiu menos doída...Quer dizer, quando você é ignorado dói, por mais que digam "ahh, o problema é dele, é ele quem está perdendo" ou "ele não te merece" ou "esquece ele". Não era nem amor, quem sabe um projeto de, talvez porque ele estava me fazendo um bem danado e eu esteja chateada por puro egoísmo.  Porque passei a ansiar pelos encontros, pelos beijos, pelos olhares. Porque dediquei textos e músicas. Porque senti falta. Porque eu me sentia viva e feliz com ele. Eis o problema: a gente NUNCA deve depender de terceiros para ter tais sensações. Deveríamos nos bastar. Na realidade não é bem assim...Por isso quando a gente desencanta, os abismos aparecem. Dentro da gente. A gente tenta preencher os vazios, planar por cima deles...Na verdade, a gente tem mesmo é que saltar.(AGO/2010)

A vida é muito curta. Por mais banal e clichê que soe, mas é a mais pura verdade, não podemos ficar correndo desesperadamente atrás de algo que talvez nem valha mais a pena, sabe? Ontem à tarde eu fiquei deitada na cama pensando muito...E escrevi isso: " Às vezes você está tão preocupado em juntar os cacos que acaba destruindo tudo em volta. Deixando tudo aos pedaços por puro egoísmo. Às vezes é inconsciente. Muitas vezes é de próposito. Porque a gente passa a ver tudo em escala cinza. E acaba destruindo tudo o que pode vir a ser colorido..." " O amor é uma ferida aberta. Você toca fundo, tenta fazer curar. Só que a dor passa pra você. A dor te consome. Como se a ferida exposta fosse te tomando por inteiro. E o único jeito de se livrar é amputando uma parte. Não é do braço que falo. É do coração." (SET/2010)

Nada é pra sempre...talvez as coisas boas e ruins tenham, ambas, um prazo...Quem dera se a gente pudesse eternizar os bons momentos e fazer com que o tempo passasse rápido nos maus...Não dá. Tudo tem seu tempo mesmo. Tudo tem uma razão de ser. Um amigo meu disse que não dá para viver a vida sem tirar uma lição de tudo o que acontece conosco. Isso é verdade. Como Renato Russo cantou : "Quem pensa por si mesmo é livre/E ser livre é coisa muito séria/Não se pode fechar os olhos/Não se pode olhar pra trás/Sem se aprender alguma coisa pro futuro"
Talvez o nosso problema seja esse de analisar muito tudo o que nos circunda e que está dentro da gente. Temos, humanos que somos, a tendência de pôr a culpa no outro...sim, muitas vezes o erro é do outro, mas ficar remoendo isso não muda nada nunca. Ainda mais se a pessoa não se conscientiza do mal que fez/faz. O mais sábio é tentar ver seus erros e falhas e tentar ser alguém melhor, mais aberto, e livre, por que não?(SET/2010)

Mas a cada dia mais me convenço de que essas atitudes só fazem sentido para nós - as sonhadoras, as românticas, as boazinhas - a maioria, com o perdão do termo, caga e anda se nós perdoamos, se nós fizemos sacrifícios e nos importamos. Simplesmente cagam e andam. Porque o ápice da coragem deles foi nos decepcionar. Gastaram todo o esforço nisso. Não sobra nada além e eles seguem em frente, sem remorsos. Não há muito o que se fazer. (SET/2010)
Se, se, se, se...Todos malditos. Nunca na história da gramática essa palavra representou algo concreto. Eu só quero ser feliz. Só isso. Não é muito.(OUT/2010)

E o medo? O que fazer com o medo? Sempre constante nas nossas vidas, nos paralisando, nos deixando no estado confortável da inação...A vida está aí e nos espera. E as pessoas mais felizes que eu conheço são aquelas que se arriscaram.(OUT/2010)

Você merece e será muito, muito, muito feliz. Tome esse tempo como um aprendizado, uma análise de tudo o que aconteceu e se fortaleça diante de tudo. Nenhum sofrimento é eterno. A felicidade acontece quando a gente menos espera. "Não há nada a ser esperado. Nem desesperado." Tudo tem seu tempo. E, enquanto ela não vem...Antes com um sorriso nos lábios que lágrimas nos olhos, né? (NOV/2010)

Eu só quero que, como você escreveu de forma linda, a gente possa se amar de verdade. E, em se amando, sendo capaz de esbanjar esse amor por aí. Porque a gente atrai o que a gente sente. E eu quero que a gente sinta o amor, seja como for.(JAN/2011)

Ah, eu adoro esse tempo. Ainda mais que essa chuva estava demorando a cair, tava um calor horroroso por aqui...Aí fico deitada, ouvindo uma música ou lendo um livro, com aquele barulho bom de chuva na janela...Fico realmente encantada, vai entender...Acho que sou meio louca, quer dizer, acho que todo mundo que é envolvido com artes de algum modo não é normal . Mas é uma anormalidade muito positiva, na minha opinião. Eu olho pro mundo com olhar desacostumado, sabe? Tudo ainda me surpreende, as coisas mais simples me deixam extasiada. Acho que eu vejo poesia em tudo.(FEV/2011)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"Todos estão surdos". E cegos. E mudos.

Nessas eleições teremos segundo turno, e anularei meu voto. Farei isso como uma manifestação silenciosa da minha grande decepção, da falta de escolhas decentes, da impossibilidade de eleger alguém que, de fato, me parece coerente e comprometido a mudar o país. Para melhor, preferencialmente.

Vou me ater a um clichê que me soa muito verdadeiro: " É mais cego aquele que não quer ver". A cegueira de que falo é sutil, se manifesta em conversas, em argumentos (ou falta deles), em situações imediatistas que não abrangem modificações reais.

Todos estão surdos, já cantou Roberto Carlos. Não ouvem as barbaridades que seus candidatos postos em pedestais falam aos quatro cantos. Antes, durante e após as eleições. Não percebem as mentiras veladas , sequer as descaradas que saem com facilidade da maldita boca hipócrita dos políticos.  
Todos estão cegos. Não conseguem enxergar a obviedade, a hipocrisia em questões que são discorridas em época de eleições, não enxergam a verdade nua e crua que está presente no dia a dia. O descaso com a educação, a miséria, a violência, a impunidade, a corrupção e as mentiras mais do que claras que passam, a cada dia, nos meios de comunicação. No lixo advindo das propagandas milionárias desses candidatos que estão mais preocupados com sua própria imagem, do que se todo aquele papel entupirá algum bueiro causando enchentes na primeira chuva que vier, transtornando a vida de tanta gente
Todos estão mudos. Esqueceram o poder construtivo da crítica, do questionamento, da não-conformação. 

Estamos nos boicotando e sendo subjugados. Somos subestimados. Não é radicalismo, parto do princípio estatítico de que grande parte da população não conhece os seus candidatos, votam e sequer lembram de quem elegeram, são comprados, infelizmente, por tantas bolsas - miséria e continuam sendo massa de manobra daqueles cujo primordial objetivo é se perpetuar no poder, tentando encontrar algo que de forma mediana agrade uma parte da população. Nós não merecemos uma vida "mais ou menos", uma escola "mais ou menos" com professores "mais ou menos" que recebem salários "mais ou menos". Nós merecemos tudo de melhor, porque a democracia é do povo, somos nós os responsáveis pela condução da nossa vida e pela eleição daquele (a) que irá conduzir o NOSSO país.

Infelizmente, não sei como finalizar essa crítica de forma otimista, porque as pessoas se conformam com muita facilidade, há inúmeros problemas a serem resolvidos no país e as pessoas se atém a atitudes ínfimas diante da situação complexa do nosso país. Muita gente não é vista, não é incluída nos projetos governamentais e não possui voz. Houve melhorias, mas ainda há uma estrada longa a ser percorrida. Há muito a ser feito. A questão é: quem você quer ter como guia?

Renato Russo, com a sua genialidade e maestria, escreveu uma canção gravada em 1993, chamada Perfeição, que, infelizmente, continua atualíssima. Não consigo ficar indiferente a esse tapa na cara em forma de poesia. O Brasil é o país do futuro. E o futuro? Já chegou?


"Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...
Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...
Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...
Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta

Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..."

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dos silêncios


Tantas palavras foram desperdiçadas nesse nosso embate. Escolhi com atenção cada uma que eu iria empregar para botar pra fora os desaforos, a angústia e a raiva que não era pouca.
Você também soube fazer o seu discurso, fugindo do lugar comum e tentando explicar o inexplicável. Sequer chegamos ao cerne de tudo. Você fugiu, eu hesitei, ficamos dando voltas e voltas, jogando palavras boca a fora. E guardando o fundamental por dentro. Que você queria falar e não o fez. Eu também me calei. E foram muitos os silêncios. Sobre eles me recuso a dissertar pois fiquei alienada. Sim, eu concordo, tudo ficou muito estranho. Nós, mudos, compartilhando suspiros e murmúrios. Onde você ria e eu te escutava, inverteram-se os papéis: eu falava, te interrompia e não houve sequer esboço de um sorriso. Por banalidades, coisas sólidas e fortes se estremecem. Talvez não fossem tão firmes assim. Talvez os silêncios tenham mesmo falado mais alto. E nós não soubemos ouvir.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Da manhã (ou sobre o amor)


Depois dos pesadelos, noites mal -dormidas, más notícias, vendo o que nunca quer se ver com lágrimas escorrendo pelo rosto, hoje acordei me perguntando sobre o amor.
Não estou com vontade de sair da minha cama, desse aparente conforto e da solidão sob a qual estou condicionada até que tudo se esclareça.
Hoje eu tive um sonho. E nesse sonho eu senti a mesma dor que eu sinto agora. A dor da perda. A dor da mentira. A dor da mudança. E a dor de se importar com alguém em vão.
Apesar dos meus pés estarem fincados no chão, minha cabeça se perde em devaneios. O amor faz das suas conosco. Ele nos deixa feliz, passa a ser objetivo de vida e, quando acaba, pelas mais diversas situações, parece inacabado ainda. Paradoxal, né? Porque quando acaba, acaba. Não faz sofrer. Não mais.
O amor é uma escolha. Escolha essa muitas vezes sutil, mas ainda assim voluntária. Escolha que muda quem somos, que muda a nossa vida. O que antes era primeira pessoa do singular, passar a ser plural. E, cá entre nós, passa a ser mais incrível. Sensacional.
Quando essa escolha é feita, corremos inúmeros riscos: ilusão, perda, traição, não-correspondência, decepção. Resta apenas ter sorte. Sorte que um dia a pessoa que você escolheu amar, te ame de volta. Por escolha própria.
Da mesma forma que há escolha para amar alguém, há também para não amá-la. E essa é a mais difícil. É como se houvesse luta direta entre a razão e a emoção. A emoção quer amar, mas, racionalmente, você sabe que não é possível e escolhe negar esse amor. E essa negação é tarefa diária. Requer disciplina, paciência, força de vontade.
Se desvencilhar é algo que você faz a cada dia. Deixar de amar alguém é uma decisão que se toma várias e várias vezes, de tão duro que é, para que não haja recaídas.

P.S.:Drunk girl spends her time with nothing but some cheap wine bottle.

P.S. 2: "Com um vinho barato, um cigarro no cinzeiro e uma cara embriagada no espelho do banheiro... Teus lábios são labirintos que atraem os meus instintos mais sacanas...O teu olhar sempre distante sempre me engana e eu entro sempre na tua dança de cigana..." (Refrão de Um Bolero - Engenheiros do Hawaii versão acústico MTV).

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Desabafo (ou o que as palavras poderiam dizer)


Eu estou feliz. Não pela tarde de ontem. Não por ter ao meu redor pessoas que me querem ou admiram. Nem por ter me resolvido, por assim dizer, com alguém cujo nome eu sequer conseguia ouvir há dois dias atrás. Eu quis me libertar da raiva. Eu quis seguir em frente. E de todas as coisas que eu poderia me orgulhar de ter feito, de longe, essa é a melhor delas.

Eu estou feliz. Em fonte grande e em negrito. Simples assim. Ponto final. Sem justificativas, sem motivos aparentes. Não estou com ninguém, não estou sozinha. E, ainda assim, estou feliz. Comigo mesma.

Meu Deus, que essa felicidade seja duradoura. Que seja real, verdadeira e constante. Que a minha cabeça esteja sempre iluminada pra fazer coisas boas. Para amar e ser amada. Para cativar os melhores amigos. Para ser tolerante e equilibrada. Para pensar antes de agir e saber dizer não, mesmo quando eu poderia dizer sim. Para desligar o telefone na hora certa, como agora.

"Quando você deixou de me amar, aprendi a perdoar e a pedir perdão." (Vinte e Nove - Legião Urbana)

Alguém me belisque, porque eu estou sonhando.

O melhor de se libertar da raiva é nunca mais precisar senti-la.

Isso faz sentido?

A vida é curta. E nesse momento chamado AGORA, eu estou feliz. E nada mais importa.

domingo, 5 de abril de 2009

Aos que passeiam por aqui falo, até para mim mesma, com uma certa vergonha e remorso...Não tenho sido assídua na postagem de alguns versos, algumas palavras, por conta do remoto acesso à rede, uma vez que sem ela fica inviável deixar um registro por aqui.

Por um lado está sendo bom; tenho escrito algumas coisas nas últimas folhas do meu caderno, tenho usado o lápis, a caneta, e esse contato, me fazia falta.

Por outro lado, já criei esse acervo. MEU acervo. Egoísta, individual e MEU. Meu, meu, meu.

Nada me deixa tão feliz quanto essa aproximação com a linguagem, com o poder ser, mesmo que eu nem seja.

Portanto, estou tentando também me convencer...logo estarei de volta. Espero que melhor e mais firme nesse intento belo e difícil que é poetizar a vida.

A literatura é o que há de mais magnífico na vida, pois transforma a tristeza, a alegria, e até mesmo as mazelas do dia a dia na mais bela poesia.

Fica o recado.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

"Ôooooouuuou gente estúpida..."

(Esse post deveria ter sido postado ontem, mas por motivos de falta de luz, foi impossível)

Começo dizendo que o dia estava abafado e que, hora ou outra, iria chover. Uma chuvinha, sabe? Para refrescar os nossos miolos. Mas, pela cor das nuvens, com certeza não seria uma chuva qualquer. Chuvinha??? Caiu um pé d'água capaz de, em menos de 30 minutos, derrubar algumas árvores, interrompendo os dois principais caminhos para que eu chegasse em casa. Foi um transtorno enorme. Mas, não era sobre os efeitos climáticos que eu queria falar, e sim, sobre os efeitos que certas situações causam em algumas pessoas.

A iminência da chuva exaltou os ânimos de quem estava esperando para chegar em casa. A fila do ônibus estava imensa. Todos estavam impacientes, inclusive eu. Nós todos sabíamos que pelos tons que o céu tinha, a chuva que viria causaria danos e, obviamente, o atraso seria mais que plausível. Seria certo.

Contudo, o que me deixou PUTA da vida, foi a má-educação de algumas pessoas na espera pelo ônibus. Fila, na minha concepção e creio que na maioria das pessoas sensatas, não é a melhor coisa do mundo, mas deve ser respeitada.

Por favor, agora avisem ao casal que deliberadamente entrou na minha frente e de outras pessoas, que isso é ERRADO e denota uma falta de RESPEITO imensa, pois acho que eles não sabiam disso.

E, para piorar, ainda queriam arranjar confusão com uma outra família (que também foi passada para trás, literalmente, nessa história de furar fila). Começaram os empurrões, os xingamentos, uma coisa horrorosa, uma situação completamente desconfortável e deselegante. Até que o fiscal do ônibus resolveu intervir, enquanto o pessoal do lado de fora se divertia vendo o "circo pegar fogo". Enfim, o fiscal pediu para que a família que estava certa em contestar saísse e fosse para o outro ônibus. Desta maneira, o casal que estava todo errado não sentiu, nem por um segundo, que o que fizeram era de extremo mau gosto.

Durante o congestionamento causado pela chuva, um dos componentes dessa dupla, simplesmente jogou pela janela uma garrafinha d'água e uma lata de batata estilo Pringles. Sem remorso algum. Eu senti um ódio imenso. Jogar lixo na rua é horroroso. E, para completar a sequência de atitudes condenáveis, esse mesmo homem começou a fumar dentro do ônibus, ou melhor, fumava com a cabeça para fora, fazendo com que o vento trouxesse aquela fumaça de cigarro barato para dentro do ônibus que já estava terrivelmente abafado.


Resumindo, educação é algo que você tem por completo ou não tem. A prova disso foram as ações tomadas por esse casal, com uma certa idade e suposta maturidade, durante as 2 horas em que fiquei no ônibus.

Escrevi esse monte de coisas porque fiquei muito indignada com tudo isso, já que tenho um mínimo de senso e consegui perceber essas atitudes que, para muitos, passariam despercebidas. Então, nasce o erro juntamente com a completa falta de educação, por olhar para certas situações e achá-las normais, ou pior, achar graça delas.

domingo, 6 de julho de 2008

O que você faria?

O que você faria se pudesse apagar algumas lembranças ?
Não seria tão ruim assim, ao passo que há muitas coisas na vida que deveriam, para o bem estar dos nossos egos inflados, serem esquecidas.
O amor não esquecido, a carta não respondida, a despedida inevitável, a decisão errada, a escolha mais fácil...
E dizem que não é possível se arrepender.
Mas eu converso, sabe?
Converso comigo mesma, e creio que deveríamos ter um cronograma de mudanças...Quando eu passei a ser o que eu sou hoje?
Como eu queria ter um gravador na minha memória e poder reproduzir para cada um que eu tenho histórias, tenho momentos, tenho uma coleção de erros que me tornaram a pessoa que sou hoje.
Não melhor, nem pior.Única.
Mesmo com essa consciência clara de que "o passado é uma lição para se meditar e não para se reproduzir", às vezes é difícil lidar com as coisas que deram errado na sua vida.Muitas vezes por sua culpa, poucas vezes não.
Então é só utopia.
Quando eu quiser lembrar abro aquela caixa de lembranças, ouço as músicas, sinto o cheiro...Nada melhor do que o nosso porão mental.Tudo é guardado, fica empoeirado, mas não é esquecido.
(Falando em apagar algumas lembranças, estas habitam minha mente com mais força e clareza.Como sempre).

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Passado(não estou maluca, só não estou bem)

É a primeira vez que escrevo algo direto no blog...sem metáforas ou algo parecido...
Eu não estou muito bem, e às vezes parece que é o mundo rindo da minha cara e me dizendo que as coisas estão e sempre estarão erradas.
Até quando o passado começou a ser tão presente?Começou a ser tão relevante?Por que parece que todo o possível e impossível relacionado às coisas que aconteceram, e que na minha cabeça(apenas na minha cabeça)passaram, sempre voltam, como um fantasma para me assombrar quando tudo está bem?Ou não está, e faz tudo piorar.
Erros...Bom, eu refleti muito sobre eles e pensei que não há um castigo pior para os erros que cometemos do que o fato de que eles ocorreram.No momento que a gente erra,quem tem um mínimo de bom senso se sente mal por ter errado.E essa sensação, por mais que o tempo passe, continua ali.E ninguém tem o direito de apontá-los(sempre volta contra você)
Verdades...Existem coisas que não suportamos saber, mesmo quando sabemos que é certo.Verdades são verdades, temos que aprender a conviver pacificamente com certas verdades.Os nossos defeitos e fraquezas são verdades.Nós temos conhecimento delas.E do nosso jeito tentamos chegar à perfeição.Mesmo que demore um pouco.
Desculpas...Só tenho que concordar que "desculpas nem sempre são sinceras".
Às vezes passamos muito tempo em determinada situação achando que há necessidade de nos conformarmos.Eu sempre bati de frente com isso, porque eu não consigo me conformar.Se há um pingo de qualquer coisa me incomodando eu estarei insatisfeita, por mais que eu queira acreditar que possa mudar.Existe uma diferença sutil entre conformismo e esperança.Uma coisa é ficar parado vendo a vida passar, outra muito diferente é fazer o possível para que isso mude, e quando não há resultados,você acredita como uma forma de não-conformismo.Acredita em resposta a tudo o que não está bom.
E eu tenho acreditado, apesar de doer muito.Apesar de no fim das contas escutar que os seus amigos não são quem você pensa, que a sua família não é o que você pensa, que o seu namorado não é o que você pensa e a pior parte: que você não é o que você pensava.
De qualquer modo, já estou há três dias remoendo tudo isso.Não sei como e se vai passar.O que sobra mesmo é acreditar, como disse Clarice Lispector.Acreditar chorando.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O bicho


"No hipersupermercado aberto de detritos, ao barulhar de caixotes em pressa de suor, mulheres magras e crianças rápidas catam a maior laranja podre, a mais bela batata refugada, juntam no passeio seu estoque de riquezas, entre risos e gritos."


Não pude me conter em relatar um fato por vezes comum para muitos, banal para tantos outros...Estava voltando de ônibus para casa hoje e observei pela janela várias mulheres e algumas crianças revirando caixotes com restos de legumes e frutas.
Carlos Drummond de Andrade, ao descrever esta cena, me comoveu muito.Mas nada se compara a observá-la.Acima de tudo, olhar de forma crítica e não apenas cômoda ao que acontece ao nosso redor.Talvez perguntemos:'No que isso me afeta?'Uma situação como essa quando não nos causa indignação, significa que algo realmente está errado.E mais, significa que estaremos sempre despreparados para lidar com algo mais amplo e mais direto, como a corrupção e a violência.Brasileiro tem que criticar mais, tem que tomar atitude. E essa atitude não consiste em dar esmola(como vejo sempre por aí...).Consiste em ser cidadão no modo mais arcaico da palavra.Consiste realmente, por mais que pareça clichê, em cumprir deveres e EXIGIR direitos.Só assim não seremos obrigados a ver uma situação tão mísera e triste.Até porque somos humanos. Somos iguais.



O Bicho

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
(Manuel Bandeira)