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terça-feira, 5 de outubro de 2010

"Todos estão surdos". E cegos. E mudos.

Nessas eleições teremos segundo turno, e anularei meu voto. Farei isso como uma manifestação silenciosa da minha grande decepção, da falta de escolhas decentes, da impossibilidade de eleger alguém que, de fato, me parece coerente e comprometido a mudar o país. Para melhor, preferencialmente.

Vou me ater a um clichê que me soa muito verdadeiro: " É mais cego aquele que não quer ver". A cegueira de que falo é sutil, se manifesta em conversas, em argumentos (ou falta deles), em situações imediatistas que não abrangem modificações reais.

Todos estão surdos, já cantou Roberto Carlos. Não ouvem as barbaridades que seus candidatos postos em pedestais falam aos quatro cantos. Antes, durante e após as eleições. Não percebem as mentiras veladas , sequer as descaradas que saem com facilidade da maldita boca hipócrita dos políticos.  
Todos estão cegos. Não conseguem enxergar a obviedade, a hipocrisia em questões que são discorridas em época de eleições, não enxergam a verdade nua e crua que está presente no dia a dia. O descaso com a educação, a miséria, a violência, a impunidade, a corrupção e as mentiras mais do que claras que passam, a cada dia, nos meios de comunicação. No lixo advindo das propagandas milionárias desses candidatos que estão mais preocupados com sua própria imagem, do que se todo aquele papel entupirá algum bueiro causando enchentes na primeira chuva que vier, transtornando a vida de tanta gente
Todos estão mudos. Esqueceram o poder construtivo da crítica, do questionamento, da não-conformação. 

Estamos nos boicotando e sendo subjugados. Somos subestimados. Não é radicalismo, parto do princípio estatítico de que grande parte da população não conhece os seus candidatos, votam e sequer lembram de quem elegeram, são comprados, infelizmente, por tantas bolsas - miséria e continuam sendo massa de manobra daqueles cujo primordial objetivo é se perpetuar no poder, tentando encontrar algo que de forma mediana agrade uma parte da população. Nós não merecemos uma vida "mais ou menos", uma escola "mais ou menos" com professores "mais ou menos" que recebem salários "mais ou menos". Nós merecemos tudo de melhor, porque a democracia é do povo, somos nós os responsáveis pela condução da nossa vida e pela eleição daquele (a) que irá conduzir o NOSSO país.

Infelizmente, não sei como finalizar essa crítica de forma otimista, porque as pessoas se conformam com muita facilidade, há inúmeros problemas a serem resolvidos no país e as pessoas se atém a atitudes ínfimas diante da situação complexa do nosso país. Muita gente não é vista, não é incluída nos projetos governamentais e não possui voz. Houve melhorias, mas ainda há uma estrada longa a ser percorrida. Há muito a ser feito. A questão é: quem você quer ter como guia?

Renato Russo, com a sua genialidade e maestria, escreveu uma canção gravada em 1993, chamada Perfeição, que, infelizmente, continua atualíssima. Não consigo ficar indiferente a esse tapa na cara em forma de poesia. O Brasil é o país do futuro. E o futuro? Já chegou?


"Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...
Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...
Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...
Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...
Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...
Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta

Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..."

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

"Ôooooouuuou gente estúpida..."

(Esse post deveria ter sido postado ontem, mas por motivos de falta de luz, foi impossível)

Começo dizendo que o dia estava abafado e que, hora ou outra, iria chover. Uma chuvinha, sabe? Para refrescar os nossos miolos. Mas, pela cor das nuvens, com certeza não seria uma chuva qualquer. Chuvinha??? Caiu um pé d'água capaz de, em menos de 30 minutos, derrubar algumas árvores, interrompendo os dois principais caminhos para que eu chegasse em casa. Foi um transtorno enorme. Mas, não era sobre os efeitos climáticos que eu queria falar, e sim, sobre os efeitos que certas situações causam em algumas pessoas.

A iminência da chuva exaltou os ânimos de quem estava esperando para chegar em casa. A fila do ônibus estava imensa. Todos estavam impacientes, inclusive eu. Nós todos sabíamos que pelos tons que o céu tinha, a chuva que viria causaria danos e, obviamente, o atraso seria mais que plausível. Seria certo.

Contudo, o que me deixou PUTA da vida, foi a má-educação de algumas pessoas na espera pelo ônibus. Fila, na minha concepção e creio que na maioria das pessoas sensatas, não é a melhor coisa do mundo, mas deve ser respeitada.

Por favor, agora avisem ao casal que deliberadamente entrou na minha frente e de outras pessoas, que isso é ERRADO e denota uma falta de RESPEITO imensa, pois acho que eles não sabiam disso.

E, para piorar, ainda queriam arranjar confusão com uma outra família (que também foi passada para trás, literalmente, nessa história de furar fila). Começaram os empurrões, os xingamentos, uma coisa horrorosa, uma situação completamente desconfortável e deselegante. Até que o fiscal do ônibus resolveu intervir, enquanto o pessoal do lado de fora se divertia vendo o "circo pegar fogo". Enfim, o fiscal pediu para que a família que estava certa em contestar saísse e fosse para o outro ônibus. Desta maneira, o casal que estava todo errado não sentiu, nem por um segundo, que o que fizeram era de extremo mau gosto.

Durante o congestionamento causado pela chuva, um dos componentes dessa dupla, simplesmente jogou pela janela uma garrafinha d'água e uma lata de batata estilo Pringles. Sem remorso algum. Eu senti um ódio imenso. Jogar lixo na rua é horroroso. E, para completar a sequência de atitudes condenáveis, esse mesmo homem começou a fumar dentro do ônibus, ou melhor, fumava com a cabeça para fora, fazendo com que o vento trouxesse aquela fumaça de cigarro barato para dentro do ônibus que já estava terrivelmente abafado.


Resumindo, educação é algo que você tem por completo ou não tem. A prova disso foram as ações tomadas por esse casal, com uma certa idade e suposta maturidade, durante as 2 horas em que fiquei no ônibus.

Escrevi esse monte de coisas porque fiquei muito indignada com tudo isso, já que tenho um mínimo de senso e consegui perceber essas atitudes que, para muitos, passariam despercebidas. Então, nasce o erro juntamente com a completa falta de educação, por olhar para certas situações e achá-las normais, ou pior, achar graça delas.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O bicho


"No hipersupermercado aberto de detritos, ao barulhar de caixotes em pressa de suor, mulheres magras e crianças rápidas catam a maior laranja podre, a mais bela batata refugada, juntam no passeio seu estoque de riquezas, entre risos e gritos."


Não pude me conter em relatar um fato por vezes comum para muitos, banal para tantos outros...Estava voltando de ônibus para casa hoje e observei pela janela várias mulheres e algumas crianças revirando caixotes com restos de legumes e frutas.
Carlos Drummond de Andrade, ao descrever esta cena, me comoveu muito.Mas nada se compara a observá-la.Acima de tudo, olhar de forma crítica e não apenas cômoda ao que acontece ao nosso redor.Talvez perguntemos:'No que isso me afeta?'Uma situação como essa quando não nos causa indignação, significa que algo realmente está errado.E mais, significa que estaremos sempre despreparados para lidar com algo mais amplo e mais direto, como a corrupção e a violência.Brasileiro tem que criticar mais, tem que tomar atitude. E essa atitude não consiste em dar esmola(como vejo sempre por aí...).Consiste em ser cidadão no modo mais arcaico da palavra.Consiste realmente, por mais que pareça clichê, em cumprir deveres e EXIGIR direitos.Só assim não seremos obrigados a ver uma situação tão mísera e triste.Até porque somos humanos. Somos iguais.



O Bicho

Vi ontem um bicho

Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
(Manuel Bandeira)