sábado, 29 de setembro de 2012

Mudança

Girando, girando
Mudando no compasso da dança
Mesmo quando a música para
O ritmo a alcança

Os pés deslizam pelo chão
As mãos insistem em balançar
Tudo é tom, tudo é som
Nada pode fazê-la parar

Bailarina de histórias
Dançarina de lembranças
Com seu vestido mais bonito
Ela se equilibra em esperanças

O ritmo se resume a isto:
Não adianta fechar a porta
A mudança é por dentro
E af(l)ora.

sábado, 15 de setembro de 2012

Epitáfio

Foi-se o tempo
foice que cava
matando a palavra
por dentro
Quando tudo o que resta
do túmulo de sentimentos
jazigo perpétuo do pensamento
É apenas silêncio
Mais nada.

sábado, 1 de setembro de 2012

Quando setembro vier

De tão azul, o céu parecerá pintado. E nós embarcaremos logo rumo à ilhas Cíclades.
Houvesse cortinas no quarto, elas tremulariam com a brisa entrando pelas janelas abertas, de manhã bem cedo. Acordei sem a menor dificuldade, espiei a rua em silêncio, muito limpa, as azaléias vermelhas e brancas todas floridas. Parecia que alguém tinha recém pintado o céu, de tão azul. Respirei fundo. O ar puro da cidade lavava meus pulmões por dentro. Setembro estava chegando enfim.
Na sala, encontrei a mesa posta para o café — leite e pão frescos, mamão, suco de laranja, o jornal ao lado. Comi bem devagarinho, lendo as notícias do dia. Tudo estava em paz, no Nordeste, no Oriente Médio, nas Américas Central, do Norte e do Sul. Na página policial, um debate sobre a espantosa diminuição da criminalidade. Comi, li, fumei tão devagarinho que mal percebi que estava atrasado para o trabalho. Achei prudente ligar, avisando que iria demorar um pouco.
A linha não estava ocupada. Quando o chefe atendeu, comecei a contar uma história meio longa demais, confusa demais. Só quando ele repetiu calma, calma, pela terceira vez, foi que parei de falar. Então ele disse que tinha acabado de sair de uma reunião com os patrões: tinham decidido que meu trabalho era tão bom, mas tão bom que, a partir daquele dia, eu nem precisava mais ir lá. Bastava passar todo fim de mês, para receber o salário que havia sido triplicado.
Desliguei um pouco tonto. Então, podia voltar a meu livro? Discreta e silenciosa como sempre, a empregada tinha tirado a mesa. No centro dela, agora, sobre uma toalha de renda branca, havia rosas cor de chá, aquelas que Oxum mais gosta. No escritório, abri as gavetas e apanhei a pilha de originais de três anos, manchados de café, de vinho, de tinta e umas gotas escuras que pareciam sangue. Reli rapidamente. E a chave que faltava, há tanto tempo, finalmente pintou. Coloquei papel na máquina, comecei a escrever iluminado, possuído a um só tempo por Kafka, Fitzgerald, Clarice e Fante. Não, Pedro não tinha ido embora, nem Dulce partido, nem Eliana enlouquecido. As terras de Calmaritá realmente existiam: para chegar lá, bastava tomar a estrada e seguir em frente.
Escrevi horas. Sem sentir, cheio de prazer. Quando pensava em parar, o telefone tocou. Então uma voz que eu não ouvia há muito tempo, tanto tempo que quase não a reconheci (mas como poderia esquecê-la?), uma voz amorosa falou meu nome, uma voz quente repetiu que sentia uma saudade enorme, uma falta insuportável, e que queria voltar, pediu, para irmos às ilhas gregas como tínhamos combinado naquela noite. Se podia voltar, insistiu, para sermos felizes juntos. Eu disse que sim, claro que sim, muitas vezes que sim, e aquela voz repetiu e repetia que me queria desta vez ainda mais, de um jeito melhor e para sempre agora. Os passaportes estavam prontos, nos encontraríamos no aeroporto: São Paulo/Roma/Atenas, depois Poros, Tinos, Delos, Patmos, Cíclades. Leve seu livro, disse. Não esqueça suas partituras, falei. Olhei em volta, a empregada tinha colocado para tocar A sagração da primavera, minha mala estava feita. Peguei os originais, a gabardine, o chapéu e a mala. Então desci para a limusine que me esperava e embarquei rumo a.
PS — Andaram falando que minhas crônicas estavam tristes demais. Aí escrevi esta, pra variar um pouco. Pois como já dizia Cecília/Mia Farrow em A cor púrpura do Cairo: “Encontrei o amor. Ele não é real, mas que se há de fazer? A gente não pode ter tudo na vida...” Fred e Ginger dançam vertiginosamente. Começo a sorrir, quase imperceptível. Axé. E The End.

(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Quando você me deixou

Para Danielle, tão íntima dos abismos quanto eu.


Quando você me deixou. E eu sequer preciso terminar a frase ou elucubrar sobre o assunto. Não há porque continuar a sentença, quando eu mesma simplesmente continuei na vida. Foi ali, exatamente ali, você me deixando, além do amargo na boca e um soco no estômago: você me deu também uma carta de alforria. 
Quando você me deixou. Eu poderia falar sobre a frieza que persistiu no lugar de tudo aquilo que eu sentia, poderia falar sobre a raiva, poderia falar sobre melancolia. Mas não. Tudo de ruim acabou pra mim naquele dia. 
Quando você me deixou. Vê, eu aprendi a usar a primeira pessoa do singular. Eu. Somente eu sei das noites que atravessei construindo barreiras em torno de mim, das insones madrugadas, da tentativa de resgatar alguma coisa bela da ruína para perceber que no fim da linha, não se engane, não sobra nada.
Quando você me deixou. A solidão, andando comigo de mãos dadas, me deu a chance de contemplar os dias, quando uma distorção de você era tudo o que eu via . O escuro da noite me bastaria, mas quando você me deixou, ele serviu apenas de inspiração para poesia.
Quando você me deixou. Eu não preciso de ninguém.
Quando você me deixou. Eu também amanhecia.
Quando você me deixou. 

Amém. 




A - gosto


E aí eu concordo com Caio Fernando quando ele fala que agosto é difícil. E que há métodos de atravessá-lo de forma que o prejuízo seja o menor possível. De forma que a passagem por ele seja menos dolorosa. Talvez você que me lê agora não entenda o porquê das sombras que permeiam o oitavo mês do ano. Caio, sol em virgem como eu, sabia. No fim das contas, repito o que um amigo disse, cético quanto às lendas do inferno astral: "Não, não é agosto. É a vida". O jeito é continuar. 
Setembro chega.
E isso tudo vai passar.


Em 09/08/12.

Even if the road seems really hard to pass by, it always leads to this:
Us

The charming man and the girl with the thorn at her side
Endless love till the end of time

Although storms insist on falling
May sunny days wash it all away
Our bond is strong, our love is true


(it’s just “I love you” I’m trying to say)

domingo, 19 de agosto de 2012

Sobre o que eu não sei dizer


Poderia começar abusando dos clichês: é mais uma daquelas fases, é temporário, vai passar, porque sempre passa. Digo apenas que é preciso. 
Há tempos tenho sentido um descompasso por dentro. Sentimentos contraditórios, pensamentos desconexos e uma sensação de vazio até então inédita. Passei a me acostumar com o fato de talvez estar perdida. Ou ser, não sei. Peço desculpa se pareço dispersa. Essa é a minha vida. 
As palavras fugiam de mim. Quando o encontro, aleatório, acontecia, era porque eu estava de alguma  forma alterada: álcool e cigarro, duas vãs companhias. Eu preciso da distância e da solidão. Preciso desse afastamento do mundo para poder me reencontrar. Perdi minha identidade enquanto tentava modificar a minha vida, e em tentando dar algum passo descobri que o caminho talvez não fosse aquele que eu queria. Pensar por si mesmo demanda coragem, força e auto estima, odeio admitir que passei a enxergar em mim a covardia alheia. Passei a fugir o olhar ao me encarar no espelho. "Quem estou tentando enganar?, era o pensamento que sempre me ocorria. Porque nada estava bem. Porque ir embora era tão mais doloroso que ficar, por isso eu resistia. E de tudo o que aconteceu, um sentimento persistente de inadequação restou, juntamente com as palavras. Muitas delas não - ditas, sufocadas, entrelinhas. Tudo o que eu sentia, mas não sabia dizer. Covardia.

O que eu quero dizer aos poucos está sendo dito. Uma crise desequilibra, traz incertezas, põe nossos pés no chão. Uma crise também nos impulsiona a mudar. Que seja assim, então. 

Dia após dia.


"Make a time to find your way"