terça-feira, 14 de setembro de 2010

Dos silêncios


Tantas palavras foram desperdiçadas nesse nosso embate. Escolhi com atenção cada uma que eu iria empregar para botar pra fora os desaforos, a angústia e a raiva que não era pouca.
Você também soube fazer o seu discurso, fugindo do lugar comum e tentando explicar o inexplicável. Sequer chegamos ao cerne de tudo. Você fugiu, eu hesitei, ficamos dando voltas e voltas, jogando palavras boca a fora. E guardando o fundamental por dentro. Que você queria falar e não o fez. Eu também me calei. E foram muitos os silêncios. Sobre eles me recuso a dissertar pois fiquei alienada. Sim, eu concordo, tudo ficou muito estranho. Nós, mudos, compartilhando suspiros e murmúrios. Onde você ria e eu te escutava, inverteram-se os papéis: eu falava, te interrompia e não houve sequer esboço de um sorriso. Por banalidades, coisas sólidas e fortes se estremecem. Talvez não fossem tão firmes assim. Talvez os silêncios tenham mesmo falado mais alto. E nós não soubemos ouvir.

domingo, 12 de setembro de 2010

Das coisas tão mais belas


O vento abre levemente as persianas, dando passagem ao sol do fim da tarde, sol das cinco horas, que ilumina tudo em volta, tudo lá fora, tudo aqui dentro.
Fotografar esse momento daria uma dimensão estática dessa pintura. O que eu quero é movimento. O que eu quero é sentimento.
Me perco em pensamentos, em sensações. Sinestesia. Cores, aromas, toques e paisagens em sincretismo. Que dia lindo para sonhar, penso comigo. E eu me permito. 

A acordar e dormir todos os dias agradecendo a esse ser superior pela perfeição de dias como esse.
Agradeço por não estar alienada e não ter me cegado ao ponto de não conseguir reparar nas coisas mais lindas à minha volta. Porque a beleza está muito próxima, embora os nossos olhos tenham se desacostumado a olhar.
Agradeço por pessoas que me inspiram de distintas e infinitas maneiras.
O poeta com suas rimas incertas e verdadeiras, transformando a dor em poesia.
O escritor que vive transformando sentimentos e pensamentos em palavras escritas.
A criança que sorri e te abraça daquele jeito tão puro que te faz perceber que há certas coisas que nunca se perdem e que ainda te tocam.
O músico que faz aquela melodia com a qual você se identifica ao ponto de dizer: "essa música é minha".
O pintor que conseguiu com toques da aquarela te deixar abismado e, inclusive, já te fez chorar diante de um quadro.
O amigo que está com você nos momentos mais inusitados, nos mais difíceis e nos mais leves de serem vividos.
A saudade que faz você perceber que o que foi vivido valeu.
O amor que você sentiu. Não importando se acabou, se foi verdadeiro, se valeu a pena. Só quem amou sabe como é. É muito bonito.


Agradeço por ter força para continuar vivendo um dia de cada vez, mesmo com a dureza do ofício.
Por conseguir pedir perdão e perdoar, quando são raras as pessoas que tem esse dom, percebo que tenho muita sorte comigo.
Por ter lutado. Por ter caído muitas vezes. Por ter chorado. Por ter me reerguido. Por ter me superado. E por ter crescido.

Por tocar o chão com meus próprios pés, por ter olhos capazes de observar, mãos capazes de escrever e mente sã capaz de compreender e aprender. E um coração, que mesmo se partindo muitas vezes, não está entorpecido, nem se embruteceu. Ainda é capaz de sentir. Muito e muitas vezes, quantas forem necessárias. Porque ódio é uma palavra muito forte. Amor também.

Agradeço por ter coragem de escolher, de ter a minha opinião e pela liberdade indicando as setas da rota a ser seguida. Agradeço pela vida, pelas possibilidades e por toda a beleza que permeia os nossos dias até o fim da estrada. Pelas tulipas, pelos livros, pelos raios de sol e pela surpresa e inspiração de domingos como esse: verde, capaz de nos dar  esperança de que haja mais dias assim daqui pra frente. Sim, há beleza. E tudo vai ficar bem.

sábado, 11 de setembro de 2010

A um ausente


"Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto."

(Drummmond)



Não. Me recuso a escrever sobre você. Aliás, não estou escrevendo sobre você, saiba disso.
Você é tão vaidoso, já cantou Carly Simon. Você é tão vaidoso que provavelmente não consegue se distanciar do seu ego. Você  se olha no espelho, com ar de Narciso, se afogando em seu próprio reflexo. 
Embora sabendo disso, juro que me encantei por você. Sabe-se lá o porquê... Agora que o que mal havia começado findou, realmente não compreendo as razões que me levaram a esse estado afetivo. Eu cheguei a gostar muito de você. Mais do que eu queria. Mais do que eu supunha, já que entrei nessa relação tentando deixar o coração, ao menos uma pequena porção de fora, para que pudesse contar a história. Nem preciso mencionar que o intento foi em vão.
Chorei um dia só. Fiquei ouvindo uma canção que dizia " Some things in life may change/ but some things they stay the same/ like time". E foi isso. O tempo permanece igual. Ele passa. Você passou. As lágrimas insistiram em correr por pouco tempo, sou um ser humano, com dois agravantes: mulher e escritora. Dissequei, analisei, fiquei cavando abismos, saltando dentro deles, desconstruindo os silêncios que me fizeram companhia depois que você decidiu ir. Sem avisar, sem deixar bilhetes, sem remorso. E eu fiquei só, no dia em que envelhecia e tentava justificar suas ausências. E, por falar em ausências, lembro de Pablo Neruda, que me remete a você em duas ocasiões: " Seu sorriso se espalha como borboletas", uma das últimas coisas que te mandei e que você fez questão de rejeitar. Apenas mais tarde (não tão tarde demais), compreendi que a razão para tal descaso é mulher como eu, apenas com nome e aparência distintos. "Gosto quando te calas porque estás como ausente" : preferia palavras ao invés desses silêncios que você me ofereceu propositadamente.

Silêncios seus se transformando em gritos meus. Eu, gritando um monte de verdades que não alcançam os seus ouvidos, não vale a pena, e porque estão dentro de mim. E não devem sair daqui. Olha, você sabe que errou. Eu sei que você sabe. E eu sei que você sabe que eu sei que você estava sentindo muito do que eu sentia. E, embora você tenha sido incoerente e leviano, compreendo que algumas coisas simplesmente passam e tem um significado diferente daquele que costumamos empregar. Ou daquele que queríamos. Superestimamos certas coisas. Subestimamos muitas outras. Novamente digo, não escrevo para você. Escrevo para mim. Porque eu sei que isso passa e, quem sabe um dia, vamos nos conformar pelo resultado final porque eu tentei, tentamos, pelo menos.

Não, não escrevo pra você. Li Caio Fernando, alguns dos meus gritos transcritos em palavras que, vezenquando, acho que você deveria conhecer...


“Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, [...] pelo que tentei ser correto e não foram comigo.”

“Não te tocar, não pedir um abraço, não pedir ajuda, não dizer que estou ferido, que quase morri, não dizer nada, fechar os olhos, ouvir o barulho do mar, fingindo dormir, que está tudo bem, os hematomas no plexo solar, o coração rasgado, tudo bem”

“Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada, mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos – emoções”

Você era um ausente. Sempre foi. Não me incomodava quando essa ausência tinha associação restrita a qualquer outro sentimento, que não esse que nos envolvia. Não sei bem o que era. Nem quero saber. Não valeu.

Ratifico: não escrevo para você. Escrevo por mim. Para te exorcizar, de uma vez por todas,  aqui de dentro. Não há nada a ser compreendido, falado ou desculpado. Somente esquecido.
Quanto ao seu pedido de desculpas que foi, de longe, o mais patético que já li, digo apenas que o guarde pra si. Eu agradeço. Agradeço por tudo isso ter acontecido agora, antes que eu me envolvesse num grau em que o sofrimento se tornasse algo muito mais dolorido do que foi. Eu tenho as minhas ausências e silêncios. Eles me bastam.


P.S.: Não, T. Esse texto não é pra você.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sobre a solidão


Eu me desiludi hoje. Recebi de uma pessoa inesperada uma notícia inesperada  que me afetou muito. Muito mais pela construção ideal e mítica que fiz sobre amor, companheirismo e cumplicidade. Porque eu olhava para elas e pensava: "Ah, amor existe sim. Tem exatamente essa cor. A cor desses olhares quando se encontram. Tem esse tom de voz doce ao atender o telefone. Amor existe sim. É exatamente assim. É bonito."
Era a minha esperança derradeira. Eu apostava tudo e além naquele relacionamento. Até hoje. Até o seu vencimento. As coisas mudam, o sentimento muda. Num relacionamento comum, composto por um par, com duas pessoas distintas, não podemos depender tanto do outro, tentar adivinhar e controlar sentimentos. Cabe apenas uma espera silenciosa e um bocado de confiança. A gente precisa acreditar. 
Se eu, que sou apenas uma admiradora distante dessa história, fiquei inconformada com o final, imagine a protagonista. Foi mais do que inesperado. Foi doído demais. E doeu muito porque ela acreditou nessa mesma proporção; ela acreditou em demasia. 
Intitulei esse texto como "Sobre a solidão" porque é ela quem aparece nessas horas. É ela quem te encara no espelho, com os olhos marejados de água. É ela que repousa a cabeça no travesseiro que ficou ali, vazio, bem ao seu lado. É ela que vai te acompanhar por um tempo. Tempo mais do que necessário para cicatrizar a ferida e diminuir a dor. A solidão é muito subestimada. Penso eu que ninguém, de fato, nasceu pra ser sozinho. Quanto ao estado solitário? Esse estado temporário, de trânsito para um possível futuro relacionamento, quando bem aproveitado, traz um crescimento incrível. O que é a solidão, além de um contato mais íntimo e intenso consigo mesmo? É aquele olhar, ora irremediavelmente voltado para o outro, passando a ser direcionado para dentro de você. Digo: com a dor, com as lágrimas, com tempo e com a solidão, por mais absurda que seja a compreensão, dá para construir algo concreto e potencialmente belo. Você pode se consertar. Rever, cair, levantar, aprender, mudar. E tentar ser alguém melhor dali em diante.

E, mais uma coisa: não dá para deixar de acreditar no amor, embora tantas desilusões suas e de terceiros façam parte da jornada. Não dá para desacreditar porque, mal ou bem, o amor acontece. O amor é real. E, por fim, "tudo o que você precisa é de amor". Mas, enquanto ele não vem, não despreze a solidão. Uma companhia é sempre companhia. E você será, sempre, seu melhor companheiro.


P.S.: M., para você, que está machucada por dentro. Como eu queria arrancar de dentro de você essa dor, fazer como que tudo isso passasse e que você não sofresse. Não posso. Aproveite esse momento para refletir. E, além da sua solidão, lembre-se: estou aqui por você. Te amo muito, muito. Você ainda será muito feliz.



sábado, 21 de agosto de 2010

Google Imagens

Você me deu asas.
E, junto com elas, um medo imenso de tentar.
Olho o abismo: paro, penso, reflito.
Fico pasma, admirada, sinto frio
Penso em borboletas que dão voltas e mais voltas no meu estômago.
Esse mistério me atrai, mas eu evito. 
O fundo mais profundo e o céu mais límpido.
E na linha que o horizonte desenha  
Pareço enxergar seus olhos
Olhando bem no fundo e me dizendo:
" Vá em frente, pode saltar..."
Saltar para onde? Não há certezas.
Estaria lá para me ver pousar?
E se a queda for mais dura que a subida?
Você ainda diz que devo arriscar...?

Foi você quem me deu as asas
E não me mostrou como seria voar.


quinta-feira, 12 de agosto de 2010


É abril e chove. Tantas coisas aconteceram e hoje me dei conta de como o tempo passou. Seria bom ter um diário agora. São tantos pensamentos não - compartilhados, tantas ideias e dúvidas. É tanto.
Não sei até que ponto uma doença pode afetar a vida de outras pessoas, mas foi um marco na minha. Há a Carla de antes e depois da cirurgia. Ficar internada foi uma experiência de renovação, como se ao expurgarem de mim o que fazia mal, retirassem, além das dores, muitas incertezas.
Consegui me reaproximar do meu lado espiritual. Era o que faltava para me redefinir. Mudar.
A minha intenção ao escrever hoje foi inspirada numa saudade leve, bonita, mas doída de uma época que me remete a tardes ensolaradas assistindo meu seriado favorito e noites inteiras ouvindo "And everything stands so still when you dance/ Everything spins so fast/And the night's in a paper cup/When you want it to last..." Quando havia importância e não descaso. Mas, a gente se acostuma com certas perdas.
Ao mesmo tempo, sinto que esse é o meu momento. Um dia eu quis fazer uma tatuagem que retratasse meu maior anseio. Hoje, eu tenho algo maior e muito mais significativo. Cada vez que eu olhar para essa cicatriz vou lembrar que sou livre. E essa liberdade, por mais mórbido que pareça, eu só alcancei pelo medo de não viver. Essa segunda chance foi, de fato, um recomeço. Aqui estou. Viva. De novo. E eu agradeço.

P.S.: Esse texto foi escrito no dia 27/04/10, no verso do meu caderno, poucos dias após eu ter sofrido uma cirurgia muito difícil. Hoje, por acaso, 6 meses após a crise que me levaria à internação, acabei encontrando e resolvi postá-lo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

All about playing games


Li um texto da Elenita Rodrigues que me fez esboçar um baita sorriso e que me fez pensar em como nós, mulheres, e alguns homens somos idiotas em certas situações.
Adoro jogar. Adoro pôquer. Adoro Playstation, Nintendo e jogos de tabuleiro. Jogos, para mim, só nesse âmbito de distração e divertimento. Pelo menos era o que eu pensava até me reconhecer na situação descrita pela escritora em seu texto.
Eu jogo nos relacionamentos ( ou em projetos de) e eu nem me tocava nisso. Eis o problema: você se emaranha nessa rede de pensamentos pré-concebidos, machismo, leitura descartável sobre "Por que os homem amam  as mulheres poderosas?" (eu li, ok? Apenas a título de pesquisa...rs) e, no fim das contas, você acaba comendo junk food, sozinha em casa, num sábado à noite esperando uma ligação que simplesmente não vai acontecer. E, na maioria das vezes, conscientemente ou não, por sua culpa. Ou melhor, por causa desses jogos de sedução que PARECEM muito lógicos e eficazes na teoria. Na prática, eles são desastrosos.
Não estou dizendo, entretanto, que nós temos que sair desesperadamente atrás do objeto do nosso desejo. Mas, se você está interessado em alguém e percebe que há reciprocidade, não vejo mal algum em demonstrar o que você sente, com cuidado,obviamente, para não assustar o outro. Até porque mesmo eu, sendo uma romântica irreparável, ficaria de cabelos em pé e fugiria se alguém me dissesse, após dois encontros, um belo "EU TE AMO" por mais esperadas que essas palavras sejam.
Sempre tem os: "Ah, mas e se..." Entre o agora e o "e se" muita coisa pode acontecer. Há infinitas possibilidades. Há riscos. E, bem como no pôquer, você só se dá bem ( ou mal, porque as chances são iguais) se pagar pra ver. Você não precisa se valer de um "All -In" (embora eu tenha muita sorte nesse aspecto rs), mas aposte algumas fichas. Você pode perder agora para ganhar depois. Nunca se sabe quando a sua sorte vai mudar.