Mostrando postagens com marcador literatura brasileira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura brasileira. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de junho de 2011

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres - Trecho

"Lóri quis transmitir isso para Ulisses mas não tinha o dom da palavra e não podia explicar o que sentia ou o que pensava, além de que pensava quase sem palavras.
Ela adivinhou que ele quase adormecia, e então despregou devagar sua mão da dele. Ele sentiu logo a falta de contato e disse entre acordado e dormindo:
— É porque eu te amo.
Então ela, em voz baixa para não despertá-lo de todo, disse pela primeira vez na sua vida:
— É porque te amo.
Grande paz tomou-a por ter enfim dito. Sem medo de acordá-lo e sem medo da resposta, perguntou:
— Escute, você ainda vai me querer?
— Mais do que nunca, respondeu ele com voz calma e controlada. A verdade, Lóri, é que no fundo andei toda a minha vida em busca da embriaguez da santidade. Nunca havia pensado que o que eu iria atingir era a santidade do corpo.
Quanto a ela, lutara toda a sua vida contra a tendência ao devaneio, nunca deixando que ele a levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a corrente doce havia tirado parte de sua força vital. Agora, no silêncio em que ambos estavam, ela abriu suas portas, relaxou a alma e o corpo, e não soube quanto tempo se passara pois tinha-se entregue a um profundo e cego devaneio que o relógio da Glória não interrompia."

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Inventário do Ir- remediável - Trecho

"Que espécie de coisa o cigarro queimou, além dos cabelos? Não queria, desde o começo eu não quis. Desde que senti que ia cair e me quebrar inteiro na queda para depois restar incompleto, destruído talvez, as mãos desertas, o corpo lasso. Fugi. Eu não buscaria porque conhecia a queda, porque já caíra muitas vezes, e em cada vez restara mais morto, mais indefinido - e seria preciso reestruturar verdades, seria preciso ir construindo tudo aos poucos, eu temia que meus instrumentos se revelassem precários, e que nada eu pudesse fazer além de ceder. Mas no meio da fuga, você aconteceu. Foi você, não eu, quem buscou. Mas o dilaceramento foi só meu, como só meu foi o desespero.Sei que foi mais fundo, mais dentro, que nessa ignorada dimensão rompeu alguma coisa que estava em marcha. Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. A noite ultrapassou a si mesma, encontrou a madrugada, se desfez em manhã, em dia claro, em tarde verde, em anoitecer e em noite outra vez. Fiquei. Você sabe que eu fiquei. E que ficaria até o fim, até o fundo. Que aceitei a queda, que aceitei a morte. Que nessa aceitação, caí. Que nessa queda, morri. Tenho me carregado tão perdido e pesado pelos dias afora. E ninguém vê que estou morto."

(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Não que me falte inspiração ou retalhos da vida pra analisar, poetizar, sentir...Sinto falta, muita coisa falta, mas muito me preenche. Então, na ausência de palavras próprias pra dissertar sobre a vida, faço desse pensamento o meu:


"É, Lopes, brigas, guerras, paz, declarações de amor, amores a dois, a três, tudo pode quando há paixão. Quem tá falando de homem, Lopes? Eu tô falando do amor entre amigos, desses que nem bambu, que enverga mas não quebra. Amor em pedaços? Até parece, se eu nunca me contentei com pouco, imagina com um pedacinho..." (Divã, 17/05/10)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Algo sobre estrelas


A importância que as estrelas têm na literatura, na minha opinião, é algo sublime.

Google Imagens


Digo isso pois elas se tornaram sinônimos de dois grandes sentimentos, talvez os mais importantes: AMOR e AMIZADE. Esses singelos pontinhos brilhantes, que transmitem beleza e encanto, simbolizaram maravilhosamente o nosso estado de espírito diante do encontro com tais sensações. Vários autores as usaram como objeto de comparacão com o ser amado ou com o amigo.



"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" (Saint - Exupéry)



Exupéry cita as estrelas como veículo de aproximação entre dois amigos, pois elas fazem com que um se lembre do outro, apesar da distância que os separa.




Um poema, que apenas pelo nome já nos chama atenção, foi motivo de meus devaneios durante muito tempo...Já decorei esse trecho de A Via Láctea do parnasiano Olavo Bilac ( e ainda disseram que o que importava na produção literária dos parnasianos era apenas a forma perfeita...). Para mim, uma das mais perfeitas descrições de como é estar apaixonado.






"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, pálido de espanto...



E conversamos toda a noite, enquanto

A via láctea, como um pálio aberto,

Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,

Inda as procuro pelo céu deserto.



Direis agora! "Tresloucado amigo!

Que conversas com elas? Que sentido

Tem o que dizem, quando estão contigo?



"E eu vos direi: "Amai para entendê-las:

Pois só quem ama pode ter ouvido

Capaz de ouvir e de entender estrelas".





Posso dizer que é exatamente assim que me sinto neste momento: rindo e conversando com estrelas...



sexta-feira, 25 de abril de 2008

Amar, verbo intransitivo

Este é um título de um livro de Mário de Andrade.Nunca tive a oportunidade de lê-lo, mas realmente achei uma colocação interessante.Conhecemos o verbo amar como sendo transitivo, ou seja, subentende-se que é necessário um complemento para que a oração faça sentido(penso comigo que amar muitas vezes não faz muito sentido...contudo...).Aprendemos gramática nas escola, mas às vezes, não aprendemos realmente como empregar o amor na nossa vida.Acabamos criando a necessidade de que amor, para ser amor, precisa estar relacionado a uma pessoa, a uma situação, a alguma coisa.O amor tem que estar ligado consigo mesmo.Amar deve ser um verbo que indica estado e não ação.Deve ser uma sensação e não atitude.O amor foi feito para ser sentido e por isso mesmo ser mais do que suficiente para que de alguma forma nos sintamos vivos.
Pensei muito tempo sobre isso e fazendo uma reflexão, amar é e tem que ser verbo intransitivo.Apenas se ama,não importa o que ou quem.Apenas se sente.Pura, completa e docemente.Amar por si só se basta.Amar por si só vale a pena.

E eu amo.