segunda-feira, 20 de abril de 2026

Às vezes tenho a impressão de que endureci. 
Que a minha capacidade de comoção foi sendo perdida.
E que o tempo foi se tornando escasso até mesmo para sentir. 
Mas a sensibilidade não é uma escolha. 
Ela sempre me atravessa.
Ela está fincada em mim.
Quase sempre sou surpreendida
Com a rima inusitada, com a melodia, com as palavras.
E algumas lágrimas colocam fim aos meios receios:
Sigo para sempre encantada.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Eu achava bonita a ideia de a arte estar ligada à dor. Os melhores textos que escrevi, pensava, tinham emergido do meu mais profundo sofrimento. Dos meus poços mais escuros. Escrevia como se as palavras fossem meu pedido de socorro, meu resgate de mim.

Penso, agora, com alguma clareza e mais maturidade, que o excesso que havia ali escondia muitas faltas. Eu tentava enfeitá-las, dar a elas um ar poético e metafórico, quando o que eu precisava era apenas deixá-las ser.

O tempo hoje é corrido demais até mesmo para sofrer. Choro um pouco, retomo o fôlego e continuo.
A melancolia é encantadora na juventude. Faz parte do processo de se conhecer, de encontrar o seu lugar, de pertencer. A intensidade, a urgência, as vontades, as carências. O que permanece é a incompletude.

Tenho muito respeito pela minha entrega, mas hoje me sinto mais inteira. Encaro as minhas paredes sem quadros, o desgaste da pintura, as rachaduras expostas.

Aceito que não há nada a ser preenchido: as lacunas são janelas abertas.

Luz e sombra entram pelas frestas.
Eu sinto.
Cada vazio me liberta.










sábado, 17 de janeiro de 2026

She hangs brightly

I missed a part of me when I crossed the border
And parted oceans
I walk the streets beneath never-ending lights and sounds
Silence is a privilege
Then I look at the sky and lose myself in wonder
So blue, so cold,
so beautiful and haunting

And I'm one of many 
Struggling to fit into a city that is larger than life
But yet too small for me sometimes
The neon blurs my dreams
And numbs my thoughts

I forget whether I am sleeping
Wide awake
Or simply lost




quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

2026

Ser presença constante
Me entregar a cada sentimento
Aceitar os pensamentos
E, sem apego,
Deixá-los ir

Compreender que nada é permanente
Que o controle é apenas ilusão
Não existe poder fora de mim
A única coisa a ser feita é abrir mão

Ser coerente em atitudes e palavras
Maturar o meu olhar para a realidade
Apreciar as paisagens
E desbravar novas estradas

Acima de tudo me respeitar
Aceitar quem eu sou e me perdoar
Que cada dia seja uma oportunidade 
De deixar para trás tudo aquilo que não me cabe
E de transformar tudo aquilo que eu conseguir

Sei que 2026 será ainda melhor
Eu decidi.







segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Perceber o quanto mudei 
Não apenas pelas fotografias em si
Mas através dos meus textos 
As palavras dizem muito sobre mim




quarta-feira, 19 de novembro de 2025

"Com quem você quer falar por horas e horas e horas?"

Digamos que seja mais um monólogo.
Só escuto, atenta.
Quase um mantra, uma meditação.

Uma forma de consolo.

Fico sempre à procura de uma nova entrevista, um novo ponto de vista que quase sempre se alinha com o meu.
A cada nova descoberta entro em êxtase porque ele se parece MESMO comigo.

De Jeff Buckley, Jesus and Mary Chain, Cowboy Junkies a, tcharam, MADONNA. Sim, ela que há 2 anos não sai dos meus mais ouvidos do Spotify.
Nas palavras dele: " eu não gostava muito dela não, respeitava, mas esse último disco é sensacional." 
E ainda é. Mais de 30 anos depois. 

Não à toa ele regravou Cherish.

Como quando ele fala sobre as propagandas ridículas dos Estados Unidos e eu só replico, doida, como se ele estivesse me ouvindo: 'eu sempre, sempre digo isso'

*

"O povo brasileiro é a coisa mais querida do mundo. É o que vale."

Ai, Renato..."e é sempre só você que me entende do início ao fim..."

Brasil. 

E cito Caio, a quem também recorro:

"Então vem o inverno, e a neve (as temperaturas do início de fevereiro aqui foram literalmente siberianas), e essa gente fria, e essa língua. Me veio vindo aos pouquinhos, não sei bem de onde, um amor tão desesperado pelo Brasil. Desesperado é o adjetivo. A um ponto que, com aquele accent de João Gilberto, a música que mais cantei aqui — baixinho, só para mim mesmo — nesse tempo todo foi “isso aqui ôôô, é um pouquinho de Brasil iáiá”, quando via algo ou alguma coisa que me lembrava o Brasil."

Meu Deus, ele escreve o que eu sinto. 

Brasil. Só a gente sabe e sente. E quando acho que estou me perdendo de mim, incapaz de ser plena em outro idioma (e quando digo plena, me refiro a ser sarcástica, irônica, debochada e até mesmo poética), eu me agarro às minhas raízes, faço questão de esquecer as lições do curso de inglês, abuso das vírgulas, não sou concisa, mantenho os períodos extensos, sem medo de confundir quem me lê.

Parece até uma incoerência eu citar tantas referências, mas é que eu entendo inglês, mas eu não sinto. Quase como enxergar e não ver.

E quando eu falo de Renato Russo, de Caio Fernando e em português não é só pra você entender.
Misturo os assuntos, literatura e música, mas tudo é arte e nem precisa de um porquê.

Esse é o meu jeito meio torto e bem latino de traduzir o que me move, o que me toca de verdade:

Um amor à distância preenchido de muita saudade.

"O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus." (Oswald de Andrade)






Outros olhos
E armadilhas

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Às vezes, por alguns segundos, paro de respirar
Estou em terra firme
Sinto meus pés tocarem o chão
Mas ainda tenho medo de me afogar

quarta-feira, 1 de outubro de 2025

É que nas gavetas só havia cores sóbrias. E, ao passar pelos cabides, não sentia calor. 
O inverno invadia o armário, mesmo tendo se despedido há pouco do verão.

Ao pisar na varanda, sentiu o sol aquecer sua pele e quase se surpreendeu com a sensação.
E projeta que sairá mais de casa, que desbravará o mundo ao redor. 
Em vão.

Até que chegou à última gaveta. Que surpresa! 
Tons de céu, pôres de sol, jardins em estampas que lembravam uma outra estação.

A primavera resiste.
Ainda que tudo ao redor insista que não.

(As flores ainda estão aqui.
Estâo em mim.
Sei que estão.)

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

O tempo me atravessa
E denuncia as marcas
Sulcos ainda finos que comportam estradas
Nos olhos, que mantenho abertos
E atentos
Na boca, moldada de tanto expressar 
Minhas glórias, minhas derrotas, 
Minhas palavras
Ao cantar, ao gritar, ao gargalhar
Ao fumar o cigarro que há muito não acendo

O tempo me atravessa
Feito flecha
Às vezes me acho mais sábia
Às vezes tropeço nos meus erros
Mudei muito
Já não danço tanto
Quase não escrevo
Cochilo entre o programa de tv
E as linhas de um texto

Mas me emociono
Trabalho duro
Ouço atentamente
E busco novas saídas
Acolho o encantamento diário
Mesmo estando mais distraída
.
No reflexo do espelho riscado
Minhas linhas a ele se alinham
Eu me revelo

A menina ainda está ali

É essa pele que habito
O meu ponto de equilíbrio
Eu me pertenço
Sou meu próprio centro
Eu sou plena de mim







quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025




Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Aquele instante
De genuína contemplação
Em que, sem motivo específico,
A gente sente
Profundamente
Que a vida tem sentido





terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Ando afastada das páginas em branco.
Mas a palavra é chama que há muito me habita.
Ainda que as rimas pareçam distantes
A verdade é que tenho vivido a minha poesia

"Convive com teus poemas, antes de escrevê-los", disse Drummond.
É o que tenho feito.

2025

Sou grata por ter me permitido descobrir coisas inéditas sobre mim. 
Creio que isso resume o sentimento que quero carregar comigo.
Não pensava que seria possível desbravar o desconhecido, aceitar novos desafios e ser surpreendida com os resultados. 
Foram muitas as novas trilhas (sonoras, inclusive).
Mudanças urgentes encontraram em mim resistência, mas, por intuição ou instinto, acabei deixando que me invadissem.
Foi a melhor decisão não me conter
E me abrir para o que ainda está por vir.
A cada passo dado em direção às novas rotas
Não perdi a capacidade de me reconhecer.

Abandonei a fuga constante
E, no meio do caminho,
Eu me (re) encontrei.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Ontem, numa conversa, ele se surpreendeu quando usei o verbo 'flanar'.
Riu, incrédulo, achando que eu tinha inventado essa palavra.
Todos os dias eu aprendo com ele.
E, por causa dele, também acabo aprendendo mais sobre mim.

Tem muita gente por aí tentando dar dicas para um relacionamento de sucesso.
Para mim não tem muito segredo.
Eu fico feliz todas as vezes que ele abre a porta de casa
A gente dá muita risada.
E é nele em quem eu me espelho.

domingo, 8 de setembro de 2024

34

"Tempo, quero viver mais duzentos anos
Quero não ferir meu semelhante
Nem por isso quero me ferir
Vamos precisar de todo mundo
Pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
Vamos precisar de muito amor
A felicidade mora ao lado
E quem não é tolo pode ver"

Calculei minha revolução solar desse novo ciclo e, não surpreendentemente, será em Aquário, meu ascendente.

Há dias estou com essa música na cabeça e agora entendo bem o porquê. 

Ao me olhar no espelho quero sempre me reconhecer. 
Não falo do tempo que marca minha pele e tinge de cinza alguns (muitos) fios dos meus cabelos.

O processo não é fácil, mas a revolução está acontecendo onde mais importa: dentro de mim.

Tenho me desafiado e descoberto coisas inéditas.
Tenho me enfrentado e me libertado de muitas limitações às quais, inconscientemente, me prendi.
Tenho me fortalecido nas conexões de amor e amizade, na arte, no trabalho.
Tenho observado em silêncio.
Tenho deixado ir.

Tenho, principalmente, me encantado.
Apesar da dor.
Apesar das frustrações e perdas.
Talvez o grande propósito seja justamente esse: não endurecer, apesar de.
É estar sempre aberto ao que vem.
Compreendendo que tudo é temporário.
Aceitando as incertezas.
Escolhendo atravessar a vida com integridade e inteireza.
Sendo fiel aos seus principios, renovando todos os dias os próprios compromissos.

Acolhendo, com gratidão, as belezas que sempre surgem no caminho.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

"O fim do termo saudade como um charme brasileiroDe alguém sozinho a cismar..."


Sul-americana,
Brasileira
Mas mais que isso 
Carioca com sangue nordestino nas veias
O coração fértil
De mar e sertão
Que vibra ao som do cavaquinho
E do acordeon
Que chora ao ouvir Belchior
Em plena quinta-feira
Pela saudade
Pelo sotaque
Pela força da canção
Porque a sensibilidade é da minha natureza
Nasci com o olhar encantado do poeta:
Em tudo há beleza.

domingo, 12 de maio de 2024

Saudades do Rio, de Manaus, da minha mãe, do meu irmão, dos meus amigos.
Pensei no Brasil, em cada canto que meus pés desbravaram, cada paisagem que foi capturada pelo meu olhar e eternizada na memória, nas palavras.

Lembrei de alguns detalhes bem específicos... a rua da minha casa, os bares, as árvores.
O som do silêncio de um fim de tarde de domingo. 
O caminho de ida ao trabalho. 
O vento.
A língua portuguesa me invadindo 24 horas por dia.
Os encontros inusitados.
Gargalhar alto.
Os abraços apertados.
Falar e sempre ser compreendida. 

Tem algo diferente nas terras no hemisfério sul. As frutas tem mais sabor, as águas são mais pacíficas e as pessoas são mais genuínas.
Uma multidão de corações pulsantes de fúria e paixão.

América Latina.


terça-feira, 16 de abril de 2024

Ode à Roseana Murray

"Mesmo nos piores cenários há que buscar beleza. É o nosso ofício." (Roseana Murray)


Não encontro as palavras precisas para definir a grandeza dessa mulher em meio à dor, encontrando forças no sofrimento e fazendo de si mesma sua mais bela obra de arte... Há tempos não me comovia tanto. Com a barbárie, mas, sobretudo, com a resiliência. Ouvir sua voz repleta de paz, suas palavras preenchidas de esperança, sua fala inundada de poesia...Tamanha potência me trouxe inúmeras reflexões. Mais que isso: me fez olhar para dentro e reconhecer diversos momentos em que a expressão artistica foi a minha única alternativa. A minha salvação.
Roseana perdeu seu braço direito e, com ele, a mão com que escrevia. 
Garantiu que vai aprender a escrever com a mão esquerda, sem hesitação.


Quero essa entrega à delicadeza.
Quero essa lucidez, plenitude e inteireza. 
Quero esse comprometimento com a vida.

Quero cultivar esse olhar desacostumado, que mesmo em meio ao que há de mais trágico, ainda consegue se encantar.
O horror não resiste à beleza.
A poesia existe para nos salvar.

domingo, 24 de março de 2024

Houve um tempo em que as palavras me invadiam até mesmo nos meus sonhos. Num ímpeto desesperado, eu inaugurava mais uma folha em branco. 
As palavras estavam sempre à espera, prontas para a estreia. Eu era apenas o veículo, o meio pelo qual elas tomavam vida. A escrita já existia, cabia a mim apenas abrir as cortinas. 

Escrever sempre foi meu espetáculo. 
Pronta para a entrega, agora me encaro.

Escrevo para despertar.