quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Eu achava bonita a ideia de a arte estar ligada à dor. Os melhores textos que escrevi, pensava, tinham emergido do meu mais profundo sofrimento. Dos meus poços mais escuros. Escrevia como se as palavras fossem meu pedido de socorro, meu resgate de mim.

Penso, agora, com alguma clareza e mais maturidade, que o excesso que havia ali escondia muitas faltas. Eu tentava enfeitá-las, dar a elas um ar poético e metafórico, quando o que eu precisava era apenas deixá-las ser.

O tempo hoje é corrido demais até mesmo para sofrer. Choro um pouco, retomo o fôlego e continuo.
A melancolia é encantadora na juventude. Faz parte do processo de se conhecer, de encontrar o seu lugar, de pertencer. A intensidade, a urgência, as vontades, as carências. O que permanece é a incompletude.

Tenho muito respeito pela minha entrega, mas hoje me sinto mais inteira. Encaro as minhas paredes sem quadros, o desgaste da pintura, as rachaduras expostas.

Aceito que não há nada a ser preenchido: as lacunas são janelas abertas.

Luz e sombra entram pelas frestas.
Eu sinto.
Cada vazio me liberta.










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