segunda-feira, 27 de junho de 2011


O cinza da estação anoitece nossos dias
A iluminação é escassa, as cores se entristecem
A ausência de calor traz uma languidez incontida
Uma persistente dor, uma irreparável melancolia

Quando o frio penetra a casa inteira
Um mero abraço não mais basta para aquecer
Nem taças de vinho, meias de lã, colchas de retalhos
Nem mesmo o repouso perto da lareira

O que flameja em mim são as ideias
O que me arde e sustenta são sentimentos
A arte, forma mais bela de entender a vida:
eis o fogo que me queima, o meu alento.

Só a poesia abriga.


quinta-feira, 23 de junho de 2011

Carta pra alguém do lado

Há tempos não me sentia tão confortável na minha pele, sabia? Um saco isso, pra quem adora dramatizar como eu. Você, você, meu amigo, me conhece melhor do que ninguém no mundo e sabendo das coisas que eu tenho passado, deve ter pensado que eu iria desistir. Ou, no mínimo, chorar bastante, abraçada com o  travesseiro. 'Para de ouvir essas músicas depressivas', você diria. 
Meu dia não foi dos melhores. Acordei de ressaca, e eu nem bebi, acredita? Eu estava desnorteada, o corpo lasso, queria ficar ali, imóvel, encarando o branco do meu teto e pensando, pensando nas palavras que eu tenho ouvido, nas situações que tenho vivido, no que eu tenho sentido, enfim. Ou dormindo, pra sempre, o que não seria ruim. Não pude me dar ao luxo, então fui à luta. Fiz todas as coisas que eu deveria fazer, eu com aquela paranoia de que a bagunça dos cômodos  é um retrato da minha confusão mental. Incomodada, coloquei tudo no lugar. Pus meu cd antiquíssimo do Bon Jovi pra tocar, eu sei, acordei não só acabada como brega. Enquanto conversava com meu irmão, interrompi o curso das palavras por um instante e meus olhos se encheram d'água assim, repentinamente. Ele, claro, não entendeu nada. Eu ficava repetindo: essa música é tão linda, tão linda (Bed of Roses, naquela parte do " About all of the things that I long to believe, about love, the truth and what you mean to me and the truth is, baby, you're all that I need"). Aí fui me esconder de vergonha por me sentir assim e, juro, foi só um projeto de, sequer chorei. Eu perdi o controle sobre as minhas reações, cara. A pior parte é essa: a agonia e a angústia que não saem daqui de dentro de maneira alguma, e você fica de um jeito tão triste, tão miserável que, por pouco, não sente pena de si mesmo. Tem coisa mais patética do que sentir pena de si mesmo? Foi com esse pensamento que eu decidi mudar o meu estado de espírito. Ok, tá uma merda, mas o que eu posso fazer pra que as coisas fiquem mais suportáveis? Exatamente isso: nada. Fiquei no meu canto, fazendo alguns resumos, ouvindo algumas músicas, revendo algumas fotos, lembrando, porque lembrando de outras coisas eu esqueço do agora. 

Tá todo mundo muito preocupado. Sinto que as pessoas falam comigo como se fosse pela última vez, como se a qualquer instante eu fosse embora. Eu sei que tenho exagerado, tá, talvez não tenha exagerado, mas eu estou num exílio - do mundo e de mim. Então quem se importa quer saber porque diabos eu não estou saindo com meus amigos, porque eu não atendo o celular e porque de vez em quando eu sumo (alguns pensaram mesmo que eu tinha morrido). Como eu li uma vez e sempre rio quando penso nisso: bom, se eu tivesse realmente sumido, você não estaria aqui falando comigo. Não estou nem aí se vão sentir falta de mim, eu estou me afastando pra tentar pôr as coisas em ordem. Deve ser mais uma dessas crises de identidade, de fé, de tudo. A Má diz que eu sou uma pensadora e, mais do que isso, uma inconformada, que eu analiso tudo, que eu sinto tudo e, por conta disso, sofro muito e amo muito, tudo assim, com advérbio de intensidade. Ela insiste que eu tenho que largar tudo o que não me apraz e sair correndo desesperada atrás daquelas coisas que certamente me farão feliz. "Veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.” Tenho lido tanto Caio e ouvido tanto Damien Rice que parece que a melancolia fez de mim sua morada e não quer mais sair daqui. Até que ela tem um certo charme, um pouco Greta Garbo, a única coisa que eu quero no momento é ficar só. Com meus livros, com meus textos, com meus dramas repetidos e sentindo amor, e saudade, e uma tristeza que traz consigo a certeza (não mais esperança, Vinicius), de um dia não ser mais triste não.

Então, meu querido amigo,  a você que me lê agora, se perguntando onde está a minha vida, digo que está aqui, sendo vivida tranquilamente, sendo sentida intensamente, porque eu vou chorar muito ainda, e vou morrer de tanta alegria, porque as coisas são assim. Eu tenho o meu tempo, tenho essas crises, essa sou eu, até o fim. E a vocês que estão achando que eu sumi (e até morri), digo que essa é uma fase, que, inclusive, na minha idade ela é bem comum. Pareço perdida, mas sei muito bem onde estou. E eu não irei a lugar nenhum.

terça-feira, 21 de junho de 2011

"My dearest friend, if you don't mind.
I'd like to join you by your side,
where we can gaze into the stars.
And sit together,
now and forever.
For it is plain as anyone can see,
we're simply meant to be
..."

"We can live like Jack and Sally if we want..."

domingo, 19 de junho de 2011

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres - Trecho

"Lóri quis transmitir isso para Ulisses mas não tinha o dom da palavra e não podia explicar o que sentia ou o que pensava, além de que pensava quase sem palavras.
Ela adivinhou que ele quase adormecia, e então despregou devagar sua mão da dele. Ele sentiu logo a falta de contato e disse entre acordado e dormindo:
— É porque eu te amo.
Então ela, em voz baixa para não despertá-lo de todo, disse pela primeira vez na sua vida:
— É porque te amo.
Grande paz tomou-a por ter enfim dito. Sem medo de acordá-lo e sem medo da resposta, perguntou:
— Escute, você ainda vai me querer?
— Mais do que nunca, respondeu ele com voz calma e controlada. A verdade, Lóri, é que no fundo andei toda a minha vida em busca da embriaguez da santidade. Nunca havia pensado que o que eu iria atingir era a santidade do corpo.
Quanto a ela, lutara toda a sua vida contra a tendência ao devaneio, nunca deixando que ele a levasse até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a corrente doce havia tirado parte de sua força vital. Agora, no silêncio em que ambos estavam, ela abriu suas portas, relaxou a alma e o corpo, e não soube quanto tempo se passara pois tinha-se entregue a um profundo e cego devaneio que o relógio da Glória não interrompia."

(Clarice Lispector)
"Ah, e dizer que isto vai acabar, que por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se ao que sente."
(Clarice Lispector)

É tão pouco. Foi isso que ela dissera e que eu ouvi, atenta e pacientemente. Amigos são bons pra essas coisas. Eles não querem saber se você está caminhando nas nuvens ou se, aparentemente, você está feliz. Eles te trazem de volta ao mundo real, quando você corre o sério risco de passar da fase estou-feliz-pra-caralho-acho-que-vou-morrer-de-tanta-alegria para a estou-desesperadamente-infeliz-quero-me-jogar-dessa-janela. Amigos são assim.

Então a amiga disse coisas duríssimas de se ouvir. Coisas daquelas que saem da boca e entram na gente como se fossem um soco no estômago, as tais doses puras de realidade. Ouvi, chorei. Pensei. Fiquei em silêncio. O que há pra se falar quando você está ouvindo supostas verdades? Não há como refutar, nem argumentar, nem coisa alguma.  'Olha, sempre faça o que te faz bem. Não deixe que te firam, não se fira. É tão pouco, minha amiga.'

Ok. Pausa pra respirar. É tão pouco. É tão pouco...Essas três palavras ficaram dando voltas na minha cabeça e eu esperava respostas e definições, mas a única coisa que me ocorreu foi uma pergunta, essa: é tão pouco? 

Se é tão pouco, por que esse brilho nos meus olhos? Nunca vi  e nunca viram nada parecido. Falam por aí que estou, inclusive, mais bonita. E a mais surpreendente de todas as observações, feita por um amigo próximo: nunca te vi tão feliz nessa vida. Talvez seja loucura, talvez eu devesse analisar com cautela as palavras da minha amiga. Só eu sei o que eu sinto. E sei que não é pouco, quanto a isso não me iludo. Não pode ser e não é pouco. 
Porque pra mim esse amor é tudo.


Eu não me sinto mais sozinha. A propósito, estou-feliz-pra-caralho-acho-que-vou-morrer-de-tanta-alegria.

sábado, 18 de junho de 2011

Lost

"On a cobweb afternoon/In a room full of emptiness/By a freeway I confess/I was lost in the pages." 
(Chris Cornell/ Tom Morello)


I don't know where else to go
I've just forgot the way back home
Here I am, staring at my feet
Secretly wishing not to be alone

Then I get down on my knees
Put my hands together and start to pray
I don't think anyone is gonna listen 
But at least I'm trying anyway

There are no maps, not even some signs
I don't remember how to begin
The steps I take are fading away
There's no place to stay, nobody to miss

I've got nothing here but memories
And a suitcase full of pain
I wish I could left all this behind
I wish I could stop this pouring rain

I try, I cry, I fall, I keep on going 
Here I am, walking again, on my own
By myself, facing hell, time and time again
Because sometimes you just can't go home.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Você

"Eu queria solidão, para não ferir os outros nem ser machucada".
(Lya Luft)

Google Imagens



Você não diz, mas sei que não está tão bem quanto vem tentando aparentar. Sorri, disfarça, pega o celular e sai porque é difícil demais estar. Aqui, ali, em qualquer lugar. E procura por nomes, números, numa busca incessante por um pouco de atenção. Uma migalha qualquer serviria, porque você está sozinha e sabe muito bem como é desconfortável essa sensação. O incômodo de não se adequar na própria pele. E anda como quem está perdida, acende um cigarro, respira, inspira, solta a fumaça, olha pro relógio. E não há mais nada além. Essa é você. Só, no meio de tanta gente desconhecida, de tanta agitação, num frio desses que é mais interior do que externo, próprio da estação. Você, tão pacífica e equilibrada, tão sem ressentimentos, ok, beleza, vai passar, sempre passa, é só mais um dia ruim, amanhã eu acordo, tomo um banho e torço pra que isso não se repita, é um saco, eu quase infarto, sempre morta, sempre morta. Tão boa atriz que ninguém nota.

E você procura algum sentido, dramatiza, entra naquele restaurante, é mais uma garota sozinha sem nada mais apropriado pra fazer. Sozinha não apenas por falta de companhia, pois a solidão lhe é inerente. Estivesse ela num estádio superlotado: da mesma forma se sentiria.

Você é uma personagem num enredo patético e sem sentido. Você perdeu, no exercício débil de fazer de conta, a noção da realidade. Tirando os pés do chão você caiu e perdeu, inclusive, a sua identidade. Uma personagem que não tem o texto decorado.  Nunca poderia ocupar o papel principal, sequer atua em improviso. E improvisar era a melhor saída, afinal. Você, mais uma atriz amargurada e ferida.


Você, uma estrangeira na sua própria vida.