Penso, agora, com alguma clareza e mais maturidade, que o excesso que havia ali escondia muitas faltas. Eu tentava enfeitá-las, dar a elas um ar poético e metafórico, quando o que eu precisava era apenas deixá-las ser.
O tempo hoje é corrido demais até mesmo para sofrer. Choro um pouco, retomo o fôlego e continuo.
A melancolia é encantadora na juventude. Faz parte do processo de se conhecer, de encontrar o seu lugar, de pertencer. A intensidade, a urgência, as vontades, as carências. O que permanece é a incompletude.
Tenho muito respeito pela minha entrega, mas hoje me sinto mais inteira. Encaro as minhas paredes sem quadros, o desgaste da pintura, as rachaduras expostas.
Aceito que não há nada a ser preenchido: as lacunas são janelas abertas.
Luz e sombra entram pelas frestas.
Eu sinto.
Cada vazio me liberta.