quinta-feira, 27 de junho de 2019

É tão estranho o correr do tempo
"Quando olho para mim não me percebo"
E concordo com Caio, com Clarice, Caeiro.
Porque passei por mim depressa
Me atravessei e sequer me entendi
O quanto eu me transformei naquilo que não prometi 
O quanto me afastei
O quanto endureci 
Por medo de perder, perdi
O laço que havia
O sentido da poesia
A conversa, a intensidade, a vontade de gritar 
Onde havia orgulho sobra medo
Fico acovardada em frente ao espelho
Tenho essa necessidade de enfiar o dedo da garganta e colocar pra fora tudo o que eu não digeri 
Eu que não me entendo, tento me encontrar
Por isso escrevo

terça-feira, 25 de junho de 2019


Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que Átropos to não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 
Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio. 

(Ricardo Reis)

sexta-feira, 7 de junho de 2019

No fim do arco íris não há pote de ouro.
A recompensa está no caminho:
O arco íris é o tesouro.

sexta-feira, 24 de maio de 2019


"Aí está ele, o mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar." (Clarice Lispector in Felicidade Clandestina)

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Interrompi a leitura. Adio o final, não quero apressar as páginas. Às vezes (muitas das vezes), um livro não é só um livro. Às vezes ele ordena lembranças, traz de volta algum sentido. De tão bem guardado, parecia perdido. O pensamento ancorado. O começo irretocável. Aquela ideia quase ingênua na varanda inundando a noite, o cigarro aceso, o copo meio cheio. E uma vontade louca de transmutar a sensação em palavras, de eternizar a brevidade do momento.  Adriana Calcanhotto dando o tom ao que eu sentia. Um torpor agridoce daquilo que fui um dia. A gente atravessa os dias tentando repetir a dose, dar concretude ao que é nostalgia. 
É por isso que escrevo.
Na beira mar o texto vem fácil.  
Viver é menos pesado quando se tem os pés na areia. 
Na madrugada da cidade que não dorme teci uma paisagem. Sem solidão, sem remorso, em silêncio.
Sentada na varanda, cigarro aceso, compus o meu enredo.
Eu, minha personagem. 

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Estou aprendendo:
A cada dia dou mais um passo para dentro
Para me encarar sem medo
Para saber mais de mim
A vida é um grande espelho
Só compreendo todo o mistério
Quando me reconheço.

sábado, 11 de maio de 2019

nada que o sol 
não explique

tudo que a lua 
mais chique

não tem chuva 
que desbote essa flor

(Paulo Lemiski)