sábado, 2 de dezembro de 2023

Não há nada melhor que atravessar os dias sabendo que você está aqui
É simplesmente me aninhar no seu peito, encontrar sossego
E dormir
É acordar primeiro, te ver amanhecendo
E perceber a sua mão me puxando pra mais perto
É te encher de beijos, bagunçar seu cabelo
Te fazer sorrir

É te ver 
É te ter
É mais do que saber 

É, há 12 anos, sentir

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Eu me ouvi dizer em voz alta algo que jamais imaginaria: estou me sentindo adulta.
Pela primeira vez na vida.
Muitos dos meus pensamentos e reações eram movidos por sombras da minha infância. Uma menina que eu quase desconhecia e de quem eu sempre fugia (nas memórias e nas fotografias). Mal eu sabia que ela sempre estaria aqui.
Entender (e aceitar) essa companhia não foi fácil. 
O distanciamento era tamanho que eu não conseguia me compreender enquanto criança. Eu já me percebia adulta aos nove anos de idade. Olhar para aquela que todos chamavam de "menina madura"/ " garota precoce" me doía de um jeito que eu não alcançava. Eu estava em descompasso. Meu ritmo estava completamente errado.
Era óbvio que essa inversão doentia muito me custaria, porque crescer é inevitável. Muitas faltas foram ocupando espaço dentro de mim...e o meu movimento natural foi tentar preencher cada buraco. 
Nunca me dei a chance de aceitar os vazios que me inundavam porque eu tinha a impressão de que eram todos temporários.
Até vir um vazio definitivo. Demorou um tempo para que eu me desse conta disso. Não acreditava que aprenderia algo com o luto. Só sentia raiva, impotência, falta. Mas algo mudou. Não sei precisar a hora exata.

E lembro de uma experiência lisérgica que tive há um tempo: o som da sirene da ambulância imaginária cada vez mais perto, desespero, libertação, abandono do ego. 'Já que estou morrendo, vou morrer', pensei.
Quando desapeguei, finalmente despertei.

Só foi preciso abrir olhos. Enxergar a menina que me habita, abraçá-la e deixá-la ir. 

A mulher que me tornei tomou o posto. 
A menina está livre, enfim.








sábado, 14 de outubro de 2023

Hoje reli pela segunda vez as nossas conversas no whatsapp. Meu jeito de te trazer pra perto quando a saudade aperta. Queria poder dizer que sinto algum alívio, mas não é verdade. O tempo passou, consigo falar de você sem embargar a voz ou ensaiar um choro, mas às vezes, como hoje, preciso dar vazão às minhas lágrimas.

Como você faz falta. Como tudo mudou em mim desde então. Hoje descobri que estou viciada em dopamina. Nem sabia que isso existia. Sempre em fuga, distraída. Angustiada com o que pode surgir se eu ficar em silêncio por mais de cinco minutos. Um corpo sem descanso. Eu fora de mim.

Queria poder te ligar e ouvir você falar alguma coisa engraçada pra me animar. Ou receber uma mensagem sua de madrugada pedindo para eu fazer o mapa astral de algum contatinho seu só para saber se vocês iriam mesmo combinar. 

São essas pequenas grandes faltas que doem mais.
Essa saudade não tem data pra acabar.

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Sol em Virgem

O sol através da janela me atravessa
As folhas da palmeira ainda não foram cortadas
E quase me invadem
O céu azul me desarma
Amparo meu rosto com as duas mãos e imagino algo como uma meditação
Devaneio
Sou extremamente atenta quando preciso estar distraída
Busco no vidro o meu olhar mais vago
Meu sorriso menos ensaiado
Eu me tateio 
Meu excesso de presença queima
E alucina

Eu ardo



quinta-feira, 29 de junho de 2023

A língua portuguesa é muito poderosa.
Embora eu não tenha tanta compreensão sobre sua vastidão, nem mesmo um grande domínio sintático (sempre tive dificuldades em entender e aceitar as normas impostas), sigo escrevendo por mera intuição.
Aprender um novo idioma é desafiador, ainda mais quando se tem uma relação de tamanha intimidade com a própria língua.
É inevitável a comparação. Toda a beleza, as possibilidades, as expressões que perdem força (e até sentido) com a tradução.
Sinto como se estivesse abandonando quem eu sou.
Às vezes, me parece traição.

Estou reaprendendo a escrever. Leio o que escrevo e quase sempre detesto. Mas não quero perder a intimidade com as palavras, porque, em última análise, é como se eu estivesse perdendo a minha própria identidade.

Acredito que esse é o momento propício para me reinventar, me redescobrir
Para isso, estou alterando as rotas
E as setas, de maneira inédita, tem apontado pra mim.











terça-feira, 27 de junho de 2023

Sobre o luto

Estava escovando os dentes quando o pensamento me atravessou. Não sei se absorvi a ideia, não apressei os movimentos das minhas mãos, nem desesperei a dança das cerdas pelos meus dentes. Finalizada a limpeza, me olhei no espelho do banheiro e quase me surpreendi com alguns novos fios brancos nos meus cabelos. Há tempos não me encaro com demora. Isso tem explicação: tenho tentado, em vão, fugir do meu próprio reflexo.
Talvez a palavra fuga não seja a mais adequada, mas ando tão consciente de mim - meu corpo lateja incessantemente há meses - que meu raro sossego acontece quando me distraio ou durmo ( às vezes, nem nos meus sonhos eu descanso).

Ameacei comprar um livro que trata do tema cientificamente, meu jeito torto de dar uma aparência madura a uma reação infantil que se arrasta há anos. O luto que tento elaborar não se refere apenas a uma perda para a morte. Há muitas perdas mal digeridas, inconscientemente ruminadas, que me fazem seguir com a impressão de que há sempre alguma coisa ausente, como escreveu Caio. Ausência em vida.
A sensação devastadora de não me reconhecer. De estar fora de mim. 

Muito se fala sobre as fases desse processo. Não me aprofundei sobre o tema, mas cheguei à conclusão de que tenho um problema seriíssimo com despedidas. Olhando em retrospecto, percebo como naveguei nessa fuga, me esquivando, com certa astúcia, da hora do adeus. Até vir uma onda mais forte. Até eu ser arrebatada. Até o meu naufrágio. 
O perigo de apenas se compreender através do outro. Os olhos alheios se fecham e você não se enxerga com inteireza. Correntes se quebram e não se sabe o que fazer com os pés agora livres e soltos. Com as incertezas.

Sempre me ressenti de partidas (voluntárias, temporárias ou definitivas). Levavam um  pedaço de mim e eu me maldizia, tentando preencher cada vazio como se a entrega não fosse minha.

Sei que a palavra culpa não se aplica e a cada linha escrita me questiono se o meu devaneio vai chegar a alguma conclusão.

Certamente não. 
Estou respeitando minhas perguntas sem respostas, meus passos largos dados em direção a lugar nenhum.

Talvez essas palavras sejam as cinzas que sigo espalhando pelo meu jardim na esperança de que eu desabroche, como bem disse Clarice.

Morrendo um pouco para renascer mais forte.








segunda-feira, 19 de junho de 2023

A amizade é um amor que nunca morre. Foi isso que decidimos escrever numa coroa de girassois pra você, há três meses. Atravessar todo esse processo foi chocante.  Ainda é. Pequenos grandes baques ainda surgem, como a mudança da titularidade do seu telefone. E a sua foto que não está mais lá no whatsapp. Aquele fiapo de esperança ao qual a gente se apega para fingir que o que aconteceu não foi real. Eu não tinha muita noção do impacto de uma perda em mim até a sua partida repentina. Te ver num dia e no outro ter que aceitar a despedida definitiva. 
Nada nos prepara. Mas, como dizem e repito como um mantra, é a vida. 
Mas você não passa.

Nossos caminhos se cruzaram e esse encontro transformou a minha história. 
Sou grata por ter crescido ao seu lado e por ter testemunhado muitos dos seus passos.
Entrego ao tempo o ofício de amenizar o luto na esperança de que a dor não persista mais que o necessário.
Porque quanto à saudade...acho que estou me acostumando a seguir faltando um pedaço.