sábado, 25 de junho de 2022

Sempre tive medo de falar que sou escritora.
A escrita é, para mim, um ofício tão sagrado, que sempre carreguei comigo o receio de maculá-lo.
Não soa um pouco prepotente?
Talvez a questão seja o comprometimento com essa escolha.
Bater no peito, sem falsa modéstia, e assumir que escrever talvez seja uma das poucas coisas que realmente me dá prazer.
As palavras sempre foram o minha forma de entender.
Porque esse é o meu olhar. Sempre foi. Meu jeito de contemplar, de me conhecer, de ressignificar.

Apenas escrevendo eu enxergo propósito, sentido em ser.
Na escrita eu encontrei o meu lugar

domingo, 19 de junho de 2022

Manaus


Não foi amor à primeira vista. Precisei de mais tempo, como tudo na minha vida. Maturei o meu olhar, passei a arriscar alguns passos além das quatros paredes que encerravam meu quarto. Tudo para ver o sol se pôr. Colecionava esses registros diariamente, aos poucos fui me sentindo integrada à cidade que eu quase desconhecia (e rejeitava), porque apenas a enxergava sob uma perspectiva.
Eu me permiti mudar a ótica e construir novas memórias. 
O legado: muitas lembranças e histórias.

E aqui, num outro país, a gente tende a fazer comparações, a enxergar muitas diferenças, mas hoje não quero me ater a elas.

Porque eu sinto falta de pupunha, de beber cerveja no Largo, de andar pelo centro, dos bares, dos flutuantes, de decidir, num rompante, ir para Presidente Figueiredo.

Sinto saudade da varanda de casa, dos meus amigos, das noites sem fim, das manhãs de chuva, dos domingos de sol, de morrer de medo de entrar num barquinho, mas correr o risco só pelo privilégio de estar à beira da paisagem, contemplando a imensidão do rio.

Sou carioca, meu sotaque me denuncia onde quer que eu vá.

Eu, que durante muito tempo quis ir embora, consigo enxergar toda a beleza daquele lugar.


Coisas que a gente só percebe quando se sente pertencente.
Coisas que só a saudade aprimora.

Porque fiz de Manaus o meu lar.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Quanto de eternidade cabe na nossa vida
O silêncio cortado pelo vento
A dança das folhas irrompendo as cortinas
E o amor ao lado
Dois corpos cansados
Exaustos do que foi consumado

Lembro do dia em que a noite parecia infinita
E o rio, calmo, na sua imensidão de mar
Nenhuma luz acesa
Só estrelas para iluminar
E eu sabia que aquilo que eu via
Iria se eternizar

Quanto de para sempre cabe nos nossos dias
A nossa retina só registra
O que a memória insiste em lembrar
A gente sabe,
A gente sempre sabe, na hora exata, o que foi feito pra durar

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Setting sun
Full moon rising
The city filled with lights
Butterflies passing by
I see magic all around
Energy that shows through my eyes
My hair dances along the wind
The one I love is by my side

Alive:
That's how happiness feels like

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Os últimos raios de sol anunciando a noite
Um desejo de boa sorte
Chá de capim limão

Vento balançando as folhas das palmeiras
Comida pronta na geladeira
Sinais verdes

Prazos finalizados antes do almoço
O abraço dele me envolvendo durante o sono
Banho quente

Cabelo um dia depois de lavado
Dormir assistindo a um seriado
Não fumar cigarro há seis meses

O quinto dia útil trazendo o salário
Todo e qualquer feriado
O Nordeste

Pés descalços depois de andar de salto
Ser elogiada por um bom trabalho
Rir escandalosamente

Casa com piscina na Vivenda
Música dos anos 80
Amigos presentes

Encontrar a rima que eu precisava
Fazer mágica com as palavras:
Enxergar poesia em todos os prazeres

(obrigada, Brecht)



sexta-feira, 8 de abril de 2022

Há belezas que só o deserto permite.
A vastidão de areia e azul, o vento lapidando as pedras, dando forma e cor a cada uma delas.
A vegetação brava
Brava porque resiste.
O sol que ilumina e arde.
Pequenos oásis, montanhas, trilhas.
O corpo que desafia a subida porque acredita que o esforço vale a vista.
Lá de cima o silêncio compõe uma sinfonia.
As palavras sequer alcançam a paisagem.

A terra em estado bruto
Em estado de arte.

Isso também é poesia.





domingo, 27 de março de 2022

"Quem é que já foi bebê aqui? Quem é que já foi uma criança pequenininha?" 

Aos 8 anos escutei Legião Urbana pela primeira vez. Achei uma relíquia: uma fita cassete com algumas músicas do As Quatro Estações. 

Há Tempos era a primeira. 

Por óbvio, à época não entendia bem uma letra que começava com "Parece coca1n4, mas é só tristeza..." 

Mais pra frente eu entenderia. 

Ouvia a fita quase todos os dias. Se fiquei esperando meu amor passar era a preferida. Fazia catequese e de alguma forma aquele final me comovia. 

Dois anos depois, fiz minha primeira grande amizade por causa da Legião.
O ápice dessa fase foi aprender Faroeste Caboclo. Foi a primeira vez que escutei (e falei) tanto palavrão. Claramente adquiri fluência com o correr dos anos (entendedores entenderão rs) 

Na adolescência realmente entendi a Legião. Entendi porque senti, por pura identificação. Ouvia Metal Contra as Nuvens e Perfeição, minhas músicas preferidas até hoje, à exaustão.

Mergulhei nas biografias, assisti a cada entrevista, queria saber tudo sobre a banda e seu vocalista. 

E aí o amor pela Legião se tornou amor pelo Renato...Carioca, ariano, ascendente em peixes e lua em áries.
Culto, articulado, politizado. 
Que passou por altos e baixos. 

Ele se tornou a minha referência. 

Cada música tem um significado.
Decorei cada intervenção, cada medley e até as letras erradas de cada disco ao vivo. 

Meu interesse por aprender italiano se deu por causa do Equilíbrio Distante. 

Durante o curso de inglês, gostava de traduzir as músicas do Stonewall Celebration Concert.

Muitos artistas que amo só conheci por causa do Renato (Cowboy Junkies, Nick Drake, Jesus and Mary Chain...) 

Trago na pele os símbolos do seu autógrafo tatuados. 

Fiz amigos que permanecem comigo até hoje por causa da Legião Urbana!

Esse talvez tenha sido o maior presente da banda: me permitir encontrar a MINHA turma por causa da sua música.  

Isso me fez suportar, atravessar. 

E chegar aqui. Hoje. No dia dele, chorando ao tentar fazer caber uma vida inteira num story de 15 segundos. 

Obrigada, Renato Manfredini Jr.
Por me salvar de tudo.
Por me ajudar a criar o meu mundo.
E por todo, todo o resto.

#renatorussovive