segunda-feira, 8 de março de 2021

Sou todas as mulheres que atravessaram a minha jornada
Que me criaram
Que me levantaram
Que me mantiveram de pé
Que se uniram a mim, de mãos dadas
Com seus exemplos, sua arte, suas palavras
De Janis e Clarice
De Nina a Elisa Lucinda
De Dolores a Cássia
Sobretudo
Elizabete e Marias
das Dores e do Socorro
Os nomes já anunciam
O peso do gênero
A força do feminino

Sou suas mãos e pés descalços 
Cada passo trilhado
Os sorrisos e lágrimas
O suor e cansaço
O trabalho árduo
O pavor do fracasso
As dúvidas, os anseios, os medos
A luta diária, a rotina exaustiva, cada pequena conquista
A insistência em continuar sem saber o porquê
Por intuição
Por teimosia
Por ter batalhado o meu espaço 
Na força, no braço
Sem embrutecer
Sem medo de me perder
Sem medo de cair
Porque eu sei que elas estariam ali

Sou a minha mãe, minhas avós
Minhas primas, minhas tias
Minhas colegas, minhas vizinhas
Sou minhas amigas
As melhores mulheres do mundo
Eu trago comigo
Estão presentes em mim
A elas eu devo a minha vida
E é por causa de cada uma delas
Que eu ainda estou aqui

Eu estou aqui.








sábado, 6 de fevereiro de 2021

Eu achava que só conseguia escrever bem se estivesse sofrendo. Se a dor fosse tamanha que eu tivesse que recorrer às palavras para expurgá-la. 
Sempre consegui falar dos meus traumas e feridas, mas nunca de fato me permiti enfrentá-los. Eu tinha medo do que eu poderia sentir. Mas, como já escrevi, do sentimento não se esquiva. 

Tenho acordado cedo todos os dias. E busco aproveitar com deleite essas horas que eu desperdiçava. Rego as plantas, alimento meu cachorro, leio um livro, faço uma aula de italiano. Às vezes só paro e contemplo, como agora.

O céu de um azul tão limpo, o vento fresco brincando com os galhos das árvores e com meus cabelos. E o silêncio que inunda tudo em volta.

Tenho estado atenta aos pequenos milagres do cotidiano. Tenho estado alerta, aprendendo com a natureza o que realmente importa: há o tempo de germinar e de florescer. 

Há o tempo de calar.
Para maturar o que há por dentro.
Na hora certa, a gente desabrocha.



domingo, 31 de janeiro de 2021

Fazia tempo que eu não prestava atenção às letras das músicas.
Fazia tempo que não escutava Nico
E, primeiro, The Fairest of the Seasons
Fui me entregando. Como aos 15 anos. 
Sentindo cada palavra me atingir feito um raio
Aquela dor bonita que a gente transforma em poesia
Para se salvar
Nestes dias

"I've been out walking
I don't do too much talking these days
These days
These days I seem to think a lot
About the things that I forgot to do
And all the times I had
A chance to."



Li em algum lugar que hoje é o dia da saudade. E fiquei reflexiva sobre essa palavra que anda tão cheia de sentido nos últimos tempos. A gente se perde na rotina, mas ela está ali, intacta, desde sempre. Fico pensando quando vou poder encontrar as pessoas que eu amo e poder dar um abraço. Penso em todos os encontros adiados. Penso no tempo passando arrastado. E nos arrastando. 

Sinto falta das pequenas certezas cotidianas.
Sinto falta das possibilidades.





(30/01/2021)
Navegar é preciso
Nos mares infindos
Para além dos horizontes  
Que o olhar não alcança 

Comandante de si mesmo
Sem máscaras ou freios
Possuindo-se 
Permitindo-se ir além da superfície
Sem bússolas ou mapas
Num lampejo
Sem planejar 

Ser seu próprio veículo
Conduzindo o seu destino
Sem artifícios
Sem filtros
Sem porto final 

Para se saber de verdade
Apenas partindo num átimo
Viver não para ser o barqueiro
Mas o barco.

Sobre espontaneidade - ao som de La Vie en Rose, versão da Grace Jones.


É sobre, no meio do dia, se pegar dançando ao som de uma música que te vibra. 

É sobre estar sob o céu de Janeiro e contemplar o sol que acaba de sair após uma chuva infinda. 

É, como agora,  admirar a noite sem estrelas, ofuscadas pelas luzes da cidade, também bonitas.


Ser espontâneo é estar aberto para receber o que vem. É estar presente. 
Seja abraçando a alegria ou deixando a dor doer. 
Apesar de. 

Pois a vida em si é o porquê.

(13 de janeiro de 2021)

domingo, 17 de janeiro de 2021

Hoje fez um dia bonito. Domingo, sol, algumas nuvens. Ao contrário dos outros dias, o tempo permaneceu firme, apesar da chuva ocasional.

E eu sentei sob o céu.
E o vento flanava pelo meu rosto.
Coloquei meus pés descalços no chão.

Segurei o choro.

Choro que não contive desde ontem. Choro que me tomou pela madrugada e invadiu o amanhecer.

Deixar a dor doer. Deixar o sentimento acontecer.
Buscar aprender alguma coisa qualquer com tudo isso. E não me deixar tomar pela amargura. 

Não é esse o caminho que venho trilhando, apesar de alguns desvios. O sofrimento, a tragédia, o luto. Esse vazio inexplicável, esse buraco fundo.
Eu só posso preenchê-lo com esperança. 

Porque estar viva é uma honra.