quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Estranho encerrar esse ano tendo escrito tão pouco. Sinto como se eu tivesse perdido parte da minha essência, já que a escrita sempre me foi vital. Não sei se é pior o silêncio ou a falta de reconhecimento com quem eu era há 10 anos. Tenho medo de ter perdido o jeito, de ter endurecido tanto a ponto de afastar de mim as palavras.
É até difícil acreditar que um dia já escrevi com tanta fluidez. Bastava o sentimento, um olhar mais atento, bastava a paisagem. E lá vinham elas, de mãos dadas. Hoje sobra silêncio, falta coragem. 
E entre abismos e vazios, calei meu grito. 
Só agora, em meio à escassez, me dei conta de como era bonito.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019





São Paulo ainda não me abraça. E eu que achava que estar no norte era se distanciar do que eu chamava lar. A cidade se apresentou pra mim toda iluminada, sol flamejante e céu azul num dia limpo. O trânsito fluía. Acho até que esbocei um sorriso. Mas aí veio o aperto no peito, a secura na boca, a taquicardia. Prestes a dormir, acordava em sobressalto, um ímpeto de quem está na iminência de ir. Mas eu tinha acabado de chegar.
Depois a neblina tomou lugar. A tarde sem cor, a chuva fina, a minha pele desacostumada do frio, meus pêlos eriçados, arrepios. Nada pra aquecer, nem Caio F.,  nem vinho tinto: a sós, eu comigo, agasalhada, mas sem abrigo.
E me lembro de uma música que nunca ouvi. Talvez não exista amor em São Paulo. O que sinto é um descompasso, parece que o coração tá no ritmo errado, correndo aos trancos, insistindo em bater aos solavancos.
Nada grave. Olho pela janela na busca de algum pedaço de beleza e tudo ao redor é concreto. A cidade é demasiadamente cinza.
Há barulho em excesso quando é silêncio o que peço.
A paisagem escancara o que sinto.
(28/11/19)

*

"E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso." (Caetano Veloso)


Reli o texto algumas vezes e fiquei em dúvida se deveria publicá-lo. O tom dele é grave, soturno, quase amargo. Mas era o que eu sentia nos primeiros dias. O fato é que eu estava anestesiada. Os hormônios descontrolados, a mudança abrupta de clima, o excesso de intensidade. Foram momentos difíceis. O meu peito precisava de sossego. O coração pedia arrego, tamanho o descompasso. É impossível não pensar nas palavras de Caetano, pois ao cruzar as ruas dessa cidade infinda eu nada entendi. Tudo é novo, insuspeitado. Diferente, intrigante, apressado. Fico feliz de não ter caído na armadilha de Narciso; quebrei o espelho, evitando o meu naufrágio.
Pude me encantar. Não à primeira, nem à segunda vista.
São Paulo exige olhar desacostumado.
É preciso estar atento.
A cidade cinza vibra poesia
E de alguma forma a rima dela encontrou a minha.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Escrevi muito menos esse ano. As palavras sempre me vieram com força, a escrita fluía. Mas tudo nesse ano me paralisa.
Não tenho inteligência emocional pra lidar com a situação que estamos vivendo.  O dia de hoje, pra mim, talvez tenha sido a gota d'água.
Saí do celular e fui pra cozinha chorar. Difícil conter quase 365 dias de raiva e de lágrimas. Um misto de ódio e impotência por não entender ainda como chegamos a esse estado de agressão, em que a violência não apenas é normalizada, como estimulada.
Falhamos como nação quando elegemos um político que não sofreu uma sanção sequer ao exaltar um torturador dentro da casa do povo.
Falhamos como nação quando perseguimos a imprensa, criminalizamos jornalistas, ameaçamos a oposição.
Falhamos como nação quando aplaudimos  um jornalista que coloca em dúvida a capacidade de um colega de cuidar dos seus próprios filhos e de constituir família, num ataque pessoal baixo, e que ainda o agride fisicamente num programa de rádio, de forma covarde.
Falhamos como seres humanos quando colocamos Deus acima de tudo e esquecemos de ter empatia, solidariedade, compaixão.

Não sei onde isso vai dar, mas tenho medo dos dias que virão.








domingo, 27 de outubro de 2019

Noites sem lembranças, sem sonhos, só álcool, mais um trago, a droga, o cigarro, voz tentando se fazer ouvir, voz que só precisava mesmo calar, dar espaço, fazer silêncio, sentir.
Barulho demais, todos os excessos e rostos apáticos, anestesiados, disformes, a esmo.

Ninguém se percebe, ninguém se ampara, todas as angústias juntas, de mãos dadas.
Mais um encontro pra se perder. 
Mais uma vez se olhar no espelho, sem maquiagem, com desepero.
E não se reconhecer.
Retomar o curso das palavras
Para que elas me tragam
De onde eu parti
De volta pra mim.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

11/10

Todo dia 11 de outubro é triste. E tenho a impressão de que sempre é nublado e chuvoso, como se fosse da data ter esse tom acinzentado, inundado de melancolia.
No dia 11 de outubro você se despedia. E deixava uma legião de órfãos sedentos da sua presença, da sua voz, sua poesia.
Revisito seus discos e entrevistas, releio sua biografia, trago seus símbolos marcados na pele só pra te manter eterno nos meus dias.
E você é, Renato.
Você me salvou tantas vezes de mim mesma...  Devo a você ter encontrado as respostas que eu precisava quando tudo parecia sem saída.
"Quando tudo está perdido, sempre existe um caminho." Eu entendi.
O correr do tempo não desbotou as rimas.
Você é (e sempre será) minha trilha preferida.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Eu me rendo. E entrego ao Universo todos os meus anseios.